sexta-feira, dezembro 29, 2006

Sangue Súbito com Vírus

Um sol que batia nas pedras grandes do muro
era quase verde, que batia também nas árvores.
manchava olhos e testas,
contribuía com a tentativa
de se crispar os dedos num poste,
deixando alguém baleado atrás
deste poste, mas só lembra em momento morto
só para criar intrusos que consomem velas e
vigiam por tempos a cera derretida –
Sub-repticiamente rindo, das besteiras – .
turvando o tédio nas cópias das mãos,
suas mãos não são iguais.
enregela na alma a dor da sensação
e a alma se espalha pela cama e pelo quarto
pela sala, pela madeira
que bóiam metro pós metro no sentido dos Homens
na luz do sol.
Esqueço o centro – centro mesmo nunca mais.
CCA

durante o dia




Durante o dia não pôde, por isso só à noite é que entrou na piscina. A água gelada o fazia respirar pela boca, arfava. Mergulhou também a cabeça. Já sentia o azulejo com os pés, quase escorregou na escada. A toalha está um pouco molhada, como sua ponta ficou encostada à água, ela subiu pela toalha. Enrolado nela, antes de ir, ainda sentia mais frio por causa do vento.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

maiores detalhes

O depois da reação
inscreve pelo tato.
Quando anda sente as ruas
que sobem pelas pernas,
realidade pela violência,
corro a salvo sem fôlego.
Se grito com os dentes cerrados
o tempo não conta.
O carro que vem na minha direção
é calmo. Não danço, subterfúgio.
O que rasga de minha pele, o que
racha de meu crânio avermelhado,
o que morre de minha células da cabeça
é tão pouco. Eu no chão atropelado.
Isso que o sol queima até o que
se pensa, ação.
Carrega a cabeça fraturada e células
do cérebro coaguladas, inchadas
por lá que respira e teima
anda nas ruas ou suas pernas.

20/dez/2006/ CCA

sábado, dezembro 16, 2006

Esperando Godot

Pela janela passavam risos medrosos, gargalhadas, sirenes de polícia e se notava o barulho que o vento fazia quando batia nas árvores e nos muros. Seus dedos seguravam um copo. Quis saber das horas, era ruim ficar preso por aquele tempo. Desviou o olhar do copo para o fim da mesa, lá estava muito escuro, acendeu a luz que correspondia. Começou a comer um pedaço de bolo, sentado; engolia com certa dificuldade, não que o bolo fosse duro ou velho, também aproveitava para beber o suco de uva, esse sim velho. Esse frio tão incomum, ficar iracundo era inevitável, pensou ele. Esperar e esperar era para si mesmo. As paredes vermelhas pareciam que iam derreter, sala vermelha e fria.
Passos lá em cima, bocejou um pouco. Alguém começara a cantar. Cantava com força, mas era claro que parecia ser um preso qualquer. Pára de cantar, gritou ele, seus tontos, idiotas. Andando ao redor da mesa, levantou algumas garrafas, ouviu agora a sirene de ambulância – alguém morre hoje. Foi colocando as cadeiras uma em cima da outra, não gostou do resultado, abriu uma daquelas portas do fundo, arrastou-as para lá, trancou à chave , mas voltou ainda para pegar uma, com ela perto da janela ele olhava para fora, chuva forte.
Um rádio fazia barulho, já fazia algum tempo quando ele notou. Tentou fingir que não ouvia, mas não deu. Sentiu um pouco de raiva. Foi até uma caixa de interruptores, mexeu em um, o rádio parou. Com garrafas vazias numa sacola, com força fechou uma porta e estava no lado de fora, sua capa de chuva era curta. As garrafas faziam barulho, umas nas outras. A chuva reta entrou, pouca, nas garrafas, ele agachou e virou-as devagar e com frio, deixando-as de cabeça para baixo. Voltou à casa. Não viu que as garrafas caíram no chão e refletia, uma luz amarela.
Percebeu que havia dormido um pouco. Uma música antiga toca no rádio, outro.
Anda um pouco, lava o rosto, a pia velha como toda a casa. A água parece estar quente ou é o frio. Aperta a cabeça com as duas mãos, está com dor nela. Fala alguns palavrões, mas a dor não some. Não sabe onde ficam os remédios, esses frascos e comprimidos. A música pára, dá-se aquele momento entre as músicas. Ele desloca a chave daquela parte para o rádio parar.
Esperar mais não queria, já era a segunda vez em uma semana. Do seus ombros descia uma dor que fazia os braços pulsarem, acreditava que era por causa da espera. Tinha a impressão de ter sol lá fora apesar da noite, o que aumentava sua dor de cabeça. Se encostou o máximo que pôde na cadeira e dormiu. Não podia ser outra coisa que um grito surdo, que fugia das sirenes da polícia, todos sentindo o vento na noite, gargalhando dos que eram vistos agora, achando que a noite é uma espera.
Ele esticado à cadeira, decidiu resignadamente esperar, acontece que nem bem amanheceu o dia ele estava morto, mesmo tendo antes decidido que esperaria, lhe ficou na cabeça que sua quarentena, ainda que intermitente, somava quase os quarentena dias que teria que ficar lá, ah ele sabia que podia morrer.
CCA

domingo, dezembro 10, 2006

Cantos Climatizados



Os animais que vagueiam
eu não sei. Como obedecer
comandos, perco rumos.
Traços num papel feito
de mapa dá nisso.
Todo um espanto do lado
esquerdo, estende a mão
direita
Com a frieza dos Homens
e a mão de algum carrasco.
Penso nisso pra passar sem
o que não há. Calo baixo
a minha cabeça. E
escuto, matando os tempos
de jogos da dispersão
a pílula diária
da resistência
Para deixar, como a morte,
o medo da inconsciência
por causa dos corpos distantes.
CCA

9/dez/2006/

quarta-feira, novembro 15, 2006

agora câmera morta
sem imagem e significa
do,
o ano engloba: Aorta que
brada. Entenda-se as
sim assim
Se desmaia na hora que que
Ima, perpassa

aí :

O que essa noite tem de frio que as mãos se juntam fortes sem pensarem em orações, então outras mãos se juntam com o vento em seus rostos, mas não há esperança, nem mesmo.

Esta manhã das Moedas

Esta manhã estava fria e com névoa, ele entrou no banheiro, era um garoto de oito anos que se preparava para sair e ir à escola. Colocou a mão no bolso, tirou de lá uma moeda, olhou-a. Ele teve que fechar os olhos rapidamente, a luz refletira na moeda e esta se livra da mão e mergulha fundo no vaso sanitário. Abaixou e tentou ver a moeda, mas não viu. Já era hora de ir. Andava olhando o chão. Não é verdade que se se perde uma moeda ganha-se outra? Pois era. Achou perto de um jornal uma moeda de valor mais alto do que a que perdera, pegou-a e foi.
Esta manhã estava fria, garoava um pouco e a névoa estava lá também. No banheiro ele tomou coragem e jogou a moeda na privada, um sorriso em seu rosto se formava. Aí então, com passos apressados chegou lá mesmo onde achou a moeda, viu outra. Era mágica, a fábula estava feita: a cada moeda que ele jogava na privada outra lhe aparecia na calçada.
Nesta manhã um velho homem esperava que lhe jogassem moedas da janela. Colocava a mão na testa como uma viseira, tentava enxergar melhor os vultos de dentro do quarto, esperava que lhe jogasse moedas. Há pessoas que gostam do barulho que elas fazem ao se chocarem com o chão. O velho míope sempre acabava deixando uma, sempre uma.
CCA

terça-feira, novembro 14, 2006

e me arrasta consigo sem objetivo

Te cria, parece múltiplo,
é real que por minutos
- você na realidade –
sente bem e não vê pela fresta.
Se cair não faz mal
Morro pelos segundos
verso vigente no passado
No branco e preto de um susto:
Um homem esticado de um
lado, de outro um anão.
Oco provisório?
Tudo era verdade
Tudo era mentido
A calma pioneira do
descobridor na
alma reprise do
replicador
Ninguém precisa destes versos
Não imagino nada destes versos
Pode querer isso?
Mas eu não quero!Eu passo e esqueço.
Penso antes automático
Esqueço e sou esquecido
Sem óculos vejo
Face à face a cara
dura e torta
Ser humana
O que tem isso a ver
com palhaço.
Se voltar é horrível.
CCA 5/Ago/2006



o que se consegue para um dia
mas nada é tão natural como parece

sábado, outubro 28, 2006

o jardineiro de um filme e o norte e o oeste num final Abrupto

Num filme que um jardineiro não conhece nada que não estava na casa em que trabalhava. Mas não assisti ao filme, só o começo.
Este homem dormia com a cabeça voltada para o norte. Ele achava.

Um policial(acho) disse que na verdade a direção não era norte, era...? não lembro, fica sendo oeste, então como dormi e não vi o filme ficcionei. Antes do sono, por isso esqueci, mas esse homem de meia idade com cabelo branco e pouco, ingênuo mostrasse como um personagem verdadeiramente vivo e chato. Chato pois seus pensamentos são do oeste e por viver diferentemente da sua história original que renunciou sem querer e como se o conhecesse e não sei o que vai acontecer. Talvez morrer, parece que irá morrer e vou contar.
Uma descoberta do tipo saber que a direção que achava que dormia não era norte, era oeste e de deixar a cara deste jardineiro com um embaraço descomunal, nota-se melhor se se ver seu olhar neste exato momento de não ser norte. Uma ilusão com a boca um pouco aberta, algo quebrado que tinha uma importância só para ele.
Gosto de dormir com a cabeça virada para o norte, disse ele sorrindo.
Algo sem importância para dizer que é oeste. Mas perceberam isso mais tarde, já tarde. Não precisávamos falar disso, isso não disseram. Não poderiam, porque isso só não é dito.

CCA

sexta-feira, setembro 29, 2006

Significa Mania ou No Éter, Singrando


Olhou a grade da janela, viu a rua. Tocou no corrimão da escada ao mesmo tempo que ouvia que não era para correr, olhou novamente a grade. Estava sentado no banco da praça, com a cabeça abaixada, arrastava o pé no chão, eu sei que meu tênis vai estragar assim, pensou Carlos. Depois voltou para esse mesmo banco. Diziam para ele que sua fama só crescia, mas agora sua mão estava um pouco macerada, abriu e fechou a mão, conteve o grito; a comissura da boca, do lado esquerdo, lhe doía e lhe sangrava.
Disse: " Correu sim, subindo aquela escada, estava escuro; ele sentia a respiração de algo. Chegou à porta e começou a chutá-la, gritava enquanto fazia isso. ‘Abre !’, gritou; ‘Abre !’, tornou a gritar e chutar; ‘Abre !’, mas calmo dessa vez; disse totalmente sóbrio: ‘Abre !...’; No que chamo de estertor, disse por vez última: ‘Abre.’, lembro disso, é ".
As duas lâmpadas brilhavam muito, estavam as duas juntas, uma ao lado da outra. Delas soltava-se um som, eletricidade. o quê os meus nervos estão fazendo, é o que você pensa? perguntaram a ele. Mas agora sua mão doía numa constância que seus nervos criaram uma temperatura quente, olharam-no todos. Não lhe deram o éter. No chão de seu quarto este líquido escorria devagar, formava uma poça, pequena. Nunca mais os fogos de artifícios parados, sempre já explodidos, sempre pós sempre parados.
Disse ele: " descemos um barranco, estavam comigo mais dois, os conhecia, mas não sei quem são. Estava indo comprar camisas. Chegamos a um córrego, era grande como um rio; estava muito sujo; barcos ocupavam todo o rio, em pares. Andávamos normalmente, parecia que pessoas moravam lá, como uma favela, mas era mais parecido com um mercado de camelôs, porque os barcos tinham cordéis e mostruários como nos camelôs. Um dos que estavam comigo foi embora, o outro estava assustado, a polícia estava por perto. As camisetas estavam lá, me tampavam a visão, é...".
E Carlos ficou muito assustado, ouviu um tiro, sabia que se o pegassem o matariam. Ele correu, saiu do córrego; virou duas ruas, olhou; à sua frente, uma grande escadaria branca com colunas enormes nas suas laterais. Ele se escondeu numa sombra - mais tiros -, aí correndo muito chegou em sua casa. Estava com uma camisa diferente, nova, ou achava. Chegou em casa, ajudaram-no. ( Ele delirava, não existia dois que ele conhecia, mas não sabia quem eram; nem barcos e camelôs; nem policiais; nem córrego ou rio. Nem tudo no delírio é verdade asfixiante, a escadaria longa, rodeada de colunas existia, pelo menos de outro modo, não era delírio, era sonho.) As histórias de violência inundam um mundo molhado por ela mesma, mas não havia essa violência, um mentiroso como Carlos infundia na cabeça das pessoas seus atos nesse mundo dele. Essas pessoas acreditavam, pois o que incendiava a cabeça dele se tornava na cabeça delas uma mentira incrustada de loucura, como o vício, tão real.
Quem um dia realmente acreditou na loucura? A loucura como mais uma parte de nós no mundo, mas seria asfixiar-se.
–- Os meus nervos se desconectam é o que quer que eu diga? Quando encostei minha mão no vidro da janela, o que senti foi o contrário, disse Carlos. Essas palavras são a tentativa de um espaço, talvez o mesmo acontece depois que batemos a cabeça, imediatamente depois que batemos a cabeça.
Foi então que o prenderam em seu quarto, sem éter. Uma chance, sibilou a mãe, que era tão jovem, tão jovem, tão jovem., porém o som passou pela porta e ficou macio e sumiu. Foi só alguma chance abafada pela tempestade lá fora. Uma enxurrada alagava bairros e casas, quem quisesse ratos que esperasse com um saco de estopa em sua casa. Deram-lhe comida, deixaram ele tomar banho. O banho quente o fazia suar. Ele via pelo basculante.
Carlos disse: "Poliço. Poliço. Tirse. Tenrazão.". Toda a estética dessas palavras era a tenra razão, são essas horas que rir é parecido com respirar.
O barulho da chave, ele percebeu. Fechado. Caiu e caído:
As paredes estavam molhadas, úmidas. As quatro paredes molhadas e era como papel, o líquido se espalhava mais e mais. O chão também estava molhado, nele estava Carlos. Agora não sei se havia sorrisos nele, mas via o éter todo, escorrendo. Não precisava mais, agora todo o éter escondido em cada centímetro de parede se expandia, devagar, feito uma nascente e brilhante como luz. Carlos se afogava, era uma glória... seu barquinho de quando criança singrava perto de sua cabeça. Naquela inundação de éter, o que se salvava eram as roupas, as roupas estavam meramente secas.
Era uma briga, muitas pessoas se empurravam. Seguravam-lhe pelo braço, não conseguia se soltar, quando virou para ver quem era, tomou um soco. O braço o soltou, ele caiu, aí então lhe pisaram na mão, com força. Ele gritou, quantos gritos haviam que o de Carlos se extinguiu por si só sem mesmo querer. A mão macerada, a comissura da boca sangrando, sentado num banco pintado com várias linhas verticais coloridas, o louco da Aldeia pensou que se ficasse quieto, se respirasse pouco e devagar conseguiria ficar bem. Esperando o próximo momento, quando estes –- agora –- pensamentos cessassem, apostava.
26/Set/2006-CCA

sábado, setembro 23, 2006

A visão de uma colher comendo uma maçã



Essa maçã que se come
Faz em meu peito
Uma patologia sempre
Junta aos ossos deste peito
Esta maçã que comi
Não é maçã
Que foi que vi?
Que esqueci?
Não mais nada
Nesse mar vermelho
Nem tão vermelho
Findando
Maçã eu não comi
Novamente as centrais dracúlas
Tergiversando maquinalmente
Como o mais extinto dos animais
Com a sorte boa ou má do que vem.
Os dois murros podres
em qual parede?
Mas estou devendo muito.

domingo, setembro 10, 2006

um aceno que não

No deserto
o que se sente com as mãos tocando areia
é o que não sei
mas há este deserto e essa areia nos meus pés
meus deus se estou descalço, vingo-me se chego a este lugar
eu toco nas pedras e no pequeno portão de madeira
galhos que caem em mim, sinto-me privilegiado por não está lá um caminho
Aonde?, eu digo pára, onde mesmo, eu paro.

terça-feira, setembro 05, 2006

Conto dos anos velhos

Meus Olhos

Num sofá mas parecido com um divã, Bárbara deitara-se há algum tempo e como era seu costume deixou os pés cobertos por uma pequena manta azul escuro, segurava seus dois comprimidos para os ossos pois seus sessenta e sete anos não eram brincadeira. Tomado o remédio adormeceu ao som lento do artista.
Agora que Bárbara dormia, ele, que era Pedro, teria um tempo livre, é claro que suas pernas doíam, mas aguentaria, era hora. Seus sapatos já tão velhos serviriam para uma caminhada? Pedro se perguntava se a caminhada seria curta ou longa...curta ou longa? O vento há essa hora, seis da tarde, começava a ficar mais forte, nada que espantasse o calor daquele verão fora de época. Saiu pela porta que rangeu como todas portas velhas rangem, desceu a pequena escada e foi em direção ao portão que era pequeno e misturava negligentemente madeira e ferro enferrujado, os três pássaros nas gaiolas cantaram amargamente, Pedro parou e olhou para as aves e até sentiu vontade de soltar os frágeis e coloridos pássaros, porém a caminhada e seu tempo lhe pesariam mais, depois, em sua consciência os pássaros tinham comida, sombra e na maioria das vezes, água fresca. Sua mão segurou a tranca e ele abriu o portão e sorrindo se precipitou para fora e depois de alguns passos lentos e meio mancos ouviu uma voz calma, fraca, quase melíflua se não fosse a voz de velha, Pedro recuou, retrocedeu para a casa e viu sua mulher a sorrir.
— Bárbara, por quê insiste em me chamar de Bernad? Indagou Pedro com fingida raiva, sem hesitar entrou na casa e encontrou sua mulher ao pé do rádio tentando encontrar a estação.
— Querido, sair sem tomar os remédios é tanta loucura! e apontou o vidro novo de remédio cheio e lacrado. Com a explicação de ter ido lá fora porque ouviu alguém chamando, Bárbara não mais o interrogou, como ele o achava, e ela só disse, calma, entre bocejos:
— Bobagem...bobagem...
Às sete, o jantar, uma sopa rala mas saborosa, estava servido. Ele comia (bebia) a sopa com exclamações como "Ah, está boa!" ou " Como é sopa boa!", ela sorriu, um meio sorriso de satisfeita, vitoriosa. Tudo ficou muito quieto. Depois do jantar, Bárbara já estava deitada no quarto do casal e ele chegou um pouco alegre, sentou na cama, olhou demoradamente e disparou:
— Você cheira à esmalte!
Ela entrecerrou os olhos e ofendida se levantou e foi sentar no sofá. Mudou de idéia e com sua mãos magras mas ágeis, procurou, em cima do armário da saleta, uma caixa, a sua caixa verde-cinza, colocou-a no sofá, cobriu-se com sua inseparável manta e foi para fora, lá encontrou a chave da tal caixa. Já dentro da casa, abriu sua caixa e com olhos de cobiça, meteu-se a olhar para seu interior, à espiá-la, o marido na porta do quarto, ela o percebeu e escondeu sua preciosidade.
Bárbara se assustou, agarrou-se ao xale e saiu da casa afobada e vermelha, Pedro a deixou ir, calmo fechou a porta por onde o vento noturno, forte e frio, começava a entrar, depois se dirigiu ao quarto, se cobriu e preparou-se para dormir um sono bem dormido.
Ela se sentou no chão barrento, estava longe de casa, havia perdido a sua manta, sentara-se para descansar um pouco. Levantou e quase cega, voltou-se de costas e seguiu para o caminho de onde viera, procurava pelo chão, sua manta e não só pelo frio que aumentava, mas também porque a manta tinha um pequeno e escondido bolso onde ela colocara a chave da caixa, e procurou, procurou e procurou, mas nada, um pouco desesperada, deixou-se cair no chão, de lado, e chorou, um choro até controlado, porém verdadeiro e rancoroso. Por sorte, antes de sair abruptamente da casa, não fechara a linda caixa, então, colocou a caixa ao seu lado, curvou-se sobre ela e a abriu, devagar, e podia-se notar um sorriso, lânguido, mas um sorriso.
Com suas mão sujas de terra molhada, Bárbara bateu na porta de sua casa, visto que estava trancada, a porta assim de fora e fechada parecia até uma pessoa, um humano que virou porta e ela sujou a porta ainda mais acariciando-a, a porta pessoa abriu-se ou melhor, foi aberta, Pedro a olhou espantado.
Bernad, por que trancou a porta? Ela entrou assim, sem olhá-lo
— O quê estava fazendo, desse jeito, toda desgrenhada, lá fora?!
Ela o olhou, uma expressão sombria, expressão de cavaleiro morto à traição e gritou:
— Pelo menos eu não tenho um tio assassino!! e foi-se para o banheiro onde pretendia tomar um novo banho.
A manhã estava fria, mas isso acontecera todas as manhãs aquele mês e além do mais à tarde o sol brilhava vigorosamente. Pedro parou com seus pensamentos e andou por toda a casa, talvez estivesse à procura da caixa, não encontrou e decidiu seguir as pegadas da mulher que podiam ser vistas pela janela da casa, as pegadas de Bárbara eram bastante visíveis, já que na noite anterior havia muito barro que agora estava seco e entregava o caminho a seguir. Foi fácil achar a manta, estava muito suja, satisfeito, voltou pra casa, colocou a manta no tanque fora de casa e entrando encontrou sua esposa a jogar no lixo os tantas remédios não antes de estragá-los completamente.
— Finalmente algum juízo! disse Pedro rindo, bateu amorosamente nos ombros da esposa.
— Uma bobagem, só... só isso.
No almoço que foi uma sopa grossa, mas sem gosto, não houve qualquer discussão, a alegria dele ao comer, como sempre, continuava tal como a satisfação dela.
Os dois estavam no sofá quando Bárbara tirou do bolso uma carta, amassada e suja, e só era possível ler no envelope em letras quase apagadas: Para: A. Bárbara , e aborrecido ele disse:
— De novo isso...num sei.
— Deixa...me deixa, respondeu ela, calma.
— Sei que é bom, mas não ajuda, num.
— Tu que achas, tu que achas...
Ele se levantou e saiu, no tanque, lavou a manta, e a deixou no sol, ele não achou chave nenhuma, não havia mais chave na manta. Mas tarde, ela viu a manta no varal e correu, pegou a manta, já seca, e a encheu de beijos, percebeu que a chave não estava lá, mas não desconfiou do marido, não queria desconfiar e não desconfiou.
"Gostou da surpresa querida?", e ela: " Sim, meu amor, é claro.", "Achei lá fora no barro.", " É, eu sei...". Sem a chave não podia fechar a caixa e mesmo se ele estiver com a chave não precisa dela, pensava.
E ela queria ler a carta novamente? não sei se é o melhor, mas é o que tenho, é o que tem? Seus pensamentos se contrariavam, não importava, ela lia a carta, a mensagem era curta e talvez por isso ela lia e relia a carta durante muitos minutos. O velho Pedro ficava realmente embaraçado ao vê-la naquilo que ele considerava "patologia, é.", além do mais o médico não aparecia há muito.
A música vibrava por toda a casa, saía do rádio-relógio pequeno e tão antigo quanto os moradores, era uma música fraca desses novos cantores, Bárbara jurava que já havia ouvido aquela música há muito. A letra da música falava de paixão e seu refrão se instalava na nossa memória de forma calma a esperar uma hora certa de vibrar na mente e por sua vez o refrão encheu a casa:
Seus olhos vítreos
me enganaram, Ah...
Sua voz lupina
me encantou, Ah...

E o refrão continuou na casa por muito mais tempo do que a música e encheu ele e ela de mais ternura e até um beijo, de lábio com lábio, poderia ser visto na hora que aconteceu, porém havia a caixa, a carta. Às dez da noite, o velho Pedro já estava deitado e sua mulher lá fora, no quintal, juntava galhos finos, sem tirar a caixa de debaixo do braço. A atmosfera que envolvia o lugar, quintal, casa e todos os objetos, era tensa, como quando vai chover, tempestade, e os moradores sentiam e sabiam. Não vai chover, eu sei.
A caixa foi colocada no meio dos gravetos, a fogueira seria forte, mas não grande e a carta foi colocada em cima da caixa e Bárbara com lágrimas nos olhos, abaixou, pegou o querosene e molhou tudo, suas coisas, e também pegou o fósforo, riscou e... porta se abrindo, de dentro da casa um som calmo, música...
Seus olhos vítreos...
O fósforo caiu e o fogo nasceu, se mostrou forte e cintilava iluminando o quintal, mas era luz estranha...
me enganaram, Ah...
A voz do velho Pedro soou, voz de arrependido, "Meu amor, me desculpe... eu...", voz branda a dela: "Bobagem... nada...". Ela olhou pra ele e seu rosto se contorceu...
— Tirou da caixa? não...não! Ela falava de modo imperial, olhando para o que ele trazia na mão.
— Eu pensei que era o melhor a - sua voz era como de criança - ser feito...
Bárbara se virou e olhou direto pra fogueira e correu em direção dela, - Sua voz lupina... me encantou, Ah... - sem pensar muito, ou melhor, só pensando, ela se jogou no fogo numa pirueta vagarosa e selvagem salvando a carta, que começava a fazer parte do combustível do fogo, a carta, queimada só nos lados, resistiu... ela estava bem, sentada com a carta na mão, tinha a expressão - lupina - vitoriosa de um rei vencedor de guerra, ele se aproximou, sentou e a envolveu em seus braços, mas ela se desvencilhou e pegou a peruca vermelha, olhou-a com vontade, olhou como se visse verdade. Quando o fogo se extinguiu, a peruca mostrou sua cor atual, cor cinza, "como meus cabelos", a peruca perdeu a cor... "eu sei.". Bárbara se dirigiu à casa segurando preocupada a carta e a peruca, resignada. O velho se sentiu mal, levantado, ficou muito tempo respirando a noite e limpando o quintal.
No dia seguinte, Pedro acordou tarde, na cozinha Bárbara cantarolava com seu ar satisfeito de sempre, ele sorriu seu sorriso, e a abraçou, ela gostou e deixou-se entre os braços do marido, por cima dos ombros dela ele viu, dentro do armário, os remédios, todos, para os dois e abraçou mais forte e disse:
— Deixo você me chamar de Bernad...
— É que eu sinto, só isso... só.
— Mas a carta e o presente - e a beijou na testa - nem eram pra você!
— Mas... é como se fosse... como se fosse.
Na mesa uma caixa, verde musgo, aberta; dentro, o presente, a peruca e Bárbara pegou a carta, abriu e leu olhando para o marido:

Linda Ana, te deixo essa linha, e um presente, desculpe meus olhos,


Carlos



Clayton Camargo

domingo, setembro 03, 2006

Estrobosfóbio - eu não entendo



Sentiram-se as perdas
mesclaram essas diferenças
- haja prosa há o etos -
profilaxia
paroxismo
Não sei do que escrevo
eu preciso de uma palavra que não entendo
pra descrever uma coisa que não entendo?
eu sinto a febre na madeira da cama, na testa,
se separo a chance eu agarro a metástase
e vou com ela. O berço ativado com parênteses.
Barulhos estampidos, a safra bateu tantos recordes
que mergulho no ar, nem tem tempo, mas não há,
digo mais: há! sobre a mesa, a fartura,
mas mesclo a diferença no interstício da madeira.
Se confio no concreto, sempre a sempre.

Cca 03/set/06

quarta-feira, agosto 30, 2006

MINIFESTO

ave a raiva desta noite
a baita lasca fúria abrupta
louca besta vaca solta
ruiva luz que contra o dia
tanto e tarde madrugastes

morra a calma desta tarde
morra em ouro
enfim, mais seda
a morte, essa fraude,
quando próspera

viva e morra sobretudo
este dia, metal vil,
surdo, cego e mudo,
nele foi tudo e, se ser foi tudo,
já nem tudo nem sei
se vai saber a primavera
ou se um dia saberei
quem nem eu saber nem ser nem era

Paulo Leminski

sobre filmes

um pequeno texto.

Encostando-se nos filmes, via sempre a sempre uma regra. Mas quem disse que sobre essas regras não se fala, perguntou. E que chamado à razão: teve de ser menos febril para constatar que as regras não tinham a ver com filmes, nem essas, não essas. Ganhando-se um prêmio pelo filme. Pode notar que a mão percorre o pequeno troféu como tocam-se os amantes e ao mesmo tempo que se agradece as regras, menospreza-as. Por assim dizer não é exatamente igual. Quando menospreza as regras antes e não se ganha o prêmio, ou ainda, quando se está fora da regra. E que moeda teremos para tirar a sorte. Salvo aquela encostada , também, ao filme. 21/Ago/06

sexta-feira, agosto 25, 2006

O título dos Planetas?

planet´s Earth
Mas não é uma história
mais eu não sei inglês

24/Ago/2006

Hoje Plutão não é mais planeta. Decidiu-se isso numa convenção de astrônomos em Praga, na República Tcheca. Este ex-planeta, agora Planeta-Anão não é dono de sua órbita, nunca foi.
A atmosfera não é a mesma
Pluto não é mais planeta
oito planetas neste sistema solar
Todo um sistema neste planeta.
Os planetas pensam
"A terra que me escolhe","eu tão grande","meu anel","meu".
Não sei mais coisas tantas sobre esses planetas. Astros-reis, estrelas, planetas, planetas-anões, estão por aí, junto com a mesma de sempre poeira cósmica e "algum" que nos visite.

E a Terra gira tão rápido!

quinta-feira, agosto 24, 2006

O Que Me Incomoda à Noite

Tinha esse cachorro que morava ao meu lado, separados por uma parede de madeira. O seu dono me cumprimentava todos os dias pela manhã, e eu ria ao lhe estender a mão, bom dia, tudo bem? Sim, senhor. Dois pobres agindo mais decentemente do que o dinheiro que tínhamos. E a casa que partilhávamos nos permitia, não só termos modos piores como, juntos, xingarmos o proprietário, tão pobre como nós, mas xingá-lo, do quê, não seria problema, tudo bem que sem um sentido próprio, tudo bem.
Esse cão ocupava um lugar junto à madeira, um lugar pequeno e lá que enchia o saco. Estragava-me todo e qualquer verso, parecia até dinheiro. Arranhava, noite pós noite, a parede, um dia ele vai furar, vai fazer um buraco nessa madeira e vou matá-lo. Dava socos na parede, gritava pára, mas não adiantava. Noite pós noite, cansado, só conseguia dormir depois, depois desse cão adormecer e eu quase juro que poderia ouvir a respiração desse cão dormindo, fundindo-se com o ronco do dono; de manhã, poderia também, depois de lhe cumprimentar, olhá-lo bem na cara e dizer-lhe: Meu Deus, esse cachorro não se parece nada com você! Talvez me respondesse, mas quem gosta quando alguém lhe responde algo que você afirmou e que não precisa de resposta.
Esse cachorro não me olhava, nem quando lhe trazia um pouco de ração, talvez receasse essa ração, eu também prefiro arroz e feijão, apesar de achar esta última palavra tão feia como o cão
O cão rosna e ladra. Late e late, via todas essas expressões, mas rir não dá, esse cão não era humano.
Acordava de madrugada e ouvia esse cachorro escavar inutilmente a parede. Por décadas se revezaram cães e cadelas a escavar esta parede, é claro que não. Só esse cachorro e ele fazia o barulho de um único cão. Mas nunca reclamei ao seu dono, vai saber porquê.
Um dia com meu cigarro quase caindo da boca ainda apagado, vi o dono brincar com seu cachorro e o cachorro retribuir-lhe com lambidas, mas sou eu que escuto toda noite na tentativa de achar outra coisa.
Noite. O cachorro não pára de fazer barulho, como se cavasse a parede. Nunca tentei entrar sub-repticiamente no outro lado, o lado do dono, para ver o estrago que o animal fazia. E essa noite esse cão cavava, como nunca; ouvia a madeira estalar; latidos animados; levantei um pouco, sentado na cama; ar frio; latidos e latidos.
Esse cão rompera a madeira, entrava agora no meu quarto, vi a parede esburacada. Latia como nunca; corria pelo quarto; cheirava. Esse cão, esse cão das noites, ele que cava e escava sem pretender o futuro. Esse cão Quincas Borba que me enlouqueceu noites pós noites havia conseguido!
A porta que separava o meu lado do lado dono do cão abriu. Saiu o dono de lá, passando a mão pelos olhos e a outra tapando um bocejo, acabara de acordar. Ajoelhou, vem menino, pronto! Vem! O cão correu para seus braços, feliz, lambeu-o, latiu amigavelmente. Você conseguiu, menino!
E o dono estava mais presente, sempre, na tarefa de seu cão, mesmo dormindo, do que eu, que o escutara todas as noites. O dono ria por seu cão, que latia por ele. Eu só virei, abaixei e adormeci muito rápido.
O cão e seu dono foram embora, fiquei, eu, com meus livros e esse buraco, pretendo consertá-lo. Quando? Hoje mesmo se for capaz. Hoje vou ter uma noite tão boa e quieta que poderei dormir em paz. E esse cão e, essas coisas, penso: Nós vamos tão surtindo àquele efeito.

21/Ago/06

terça-feira, agosto 22, 2006

balada do velho roqueiro

O rock que eu ouvi
não falava disso,
por que era de um velho
e que eu não conhecia,
a música não entendi.
e o velho, ali no palco.
bêbado, ele parou e
não tinha mais banda.
disse que não cantaria.
que compor não compunha.
e que velho, eu sou velho.
Alguém gritou se ele queria
uma gilete, respondeu que
a barba não fazia há meses.
e seus olhos e partituras não
se viam. brigava com o guitarra.
aprendi, disse, que sou inerte, baixo.
Fraco.fumo muito. perdi ela.
O velho riu, era preciso gritar
ele: Sou uma tartaruga.
e cantou, eu não pude
t-a-r-a-n-t-a-t-á
que eu vá, ser quem é.
t-a-t-a-r-a-n-t-á
quem vá é que eu ser.
Retiraram o velho.
Alguns riram, e nem houve rock
não na noite que o velho cantou
não lembro o rock, só sei que o
velho roqueiro bêbado não cantou
mais. não o ouvi mais. o rock que
eu ouvi não falava disso. não.
17/Fev/06

sábado, agosto 12, 2006

A Demissão da Funcionária Funerária



Ninguém riu, mas foi quase uma unanimidade intimamente, salvo um garoto e Carlos. Não riam, admiravelmente não riam e poderiam, quando todos os "convidados" do velório chegaram a família se ausentara e não havia ali nenhum amigo tão íntimo que pudesse tomar as dores da possível risada, admiravelmente ninguém ria.
Se rissem, ririam porque o morto, um homem de uns oitenta anos, tinha as mãos sobre o peito, como é sempre, e entre as mãos uma maçã, não dessas pequenas e de várias tonalidades, essa era grande e vermelha, como saída de um conto de fadas, vermelha e com um pequeno cabo que sustentava uma folha verde verde.
Como alguém entrasse pela porta agressivamente, errando o velório que deveria entrar, não olhou por isso o rosto do morto. Só sorriu, abestalhadamente, quando avistou a maçã, automaticamente subiu o olhar para a cara do morto, parou de rir. Carlos ficou sabendo o motivo de todos conterem o riso, não teve como não pensar que "o velho morto ri antes". O sorriso fraco do morto era visível, um sorriso sem mostrar os dentes. Carlos sabia que seu pensamento sobre o sorriso do morto fora infantil e primário, o defunto poderia estar com aquele sorriso por motivos vários: segundos antes de morrer umas cócegas, ou talvez uma piada e o que mais condizia com o sorriso, uma leve ironia. Carlos passou os olhos pelos presentes (o homem já havia saído), todos continuavam quietos, olhando para baixo ou para um lado vazio. O garoto de oito anos brincava com a madeira do caixão. Carlos fechou os olhos, sentiu uma pontada na testa e uma sensação horrível o invadiu: era como se alguém, com seus dedos indicadores apertasse suas têmporas continuamente, com intervalos pequenos; sentou, horrível Ter que olhar toda aquela gente em pé, estranhos uns aos outros, deixando nele a quase certeza que todos ali haviam errado de velório. Tomou conta dele um desejo desesperado, o desejo da maçã, como ela deve ser banca e suculenta por dentro! E era, lembre-se, essa maçã, agora, saída de um conto de fadas ou filme, era, branca e suculenta por dentro. Sua sede só seria morta depois de uma dentada na maçã, maçã.
Mas não houve tanta angústia como ele imaginou que sofreria. Soou um apito, todos saíram, tristes, para uma sala, um tipo de serviço da funerária, comida e bons sucos. Carlos ficou sozinho, minto, havia a maçã, o garoto escondido embaixo da caixão e o morto, mas Carlos não sabia disso, salvo a maçã; levantou, perto do caixão se deu conto do morto, o olhou. Pegou a maçã, ia saindo, o menino lhe chamou, se olharam, o garoto disse como alguém que lhe conhece há muito: "Eu vi", Carlos sentiu seu coração bater descompassado, se sentiu mal, foi indo para o jardim; Lá fora, aquele vento e a noite o ajudariam a respirar melhor, não, desde de que vira a maçã não a esquecera, a analogia com o desejo sexual lhe fez rir, ouviu o riso como uma bombinha pequena, fraca, mas estridente, se assustou, rir assim. Nesse entre tempo a maçã lhe escorregou das mãos indo ficar quieta e vermelha no chão branco, embaixo de suas pernas; abaixou, sentiu a maçã nas mãos - esquecera o menino -, olhou por debaixo das pernas, sentiu a camiseta ficar molhada e as faces quentes, imaginou ver sentado sobre o próprio corpo, o morto, com aqueles olhos abertos e cabelos brancos e um sorriso. Quase caindo, saiu meio correndo pro jardim, lá sentou num dos degraus de uma escadinha de mármore com a sensação de Ter definitivamente, matado o velho morto, sorriu.
A pressão nas têmporas continuava, sua maçã lhe vibrava nas mãos. O garoto o observava por de trás de uma janela pequena, o vidro o deixava menos branco mas mais pálido, abriu a janela, o olhou, chamou-o, lhe disse:
-- Eu não comeria...
A vontade da maçã era imensa, há semanas não provava uma, não se ouve um menino, ainda mais com uma maçã vermelha de conto de fadas ou filme.
Seus olhos se avivaram, perderam sua palidez interior; nas mãos eletricidade fugitiva, como a avivar-lhe os dedos; na boca, a saliva emergiu, o prazer, o gosto da maçã e nunca aquela fora uma maçã paradisíaca – a sensação nas têmporas cessara -, Carlos gostou de, ali com o vento, a noite e o chão se sentir o único soldado vivo, esperando o inimigo, sem coragem e consciente e gostou também de pensar: "E como se a casca vermelha se juntasse com o meu sangue, a poupa branco com minha pele, estou, invariavelmente, de trás pra frente e todo esse contato criou algo, não sei bem o que é, o que é? Sei só que é violáceo!".
O que faz a maçã em seu peito, o que faz ela em teu estômago? O que não é purificado morre, Carlos, se eu pudesse dizer, é só uma maçã.
Depois da mordida, nas suas mãos, a maçã murchara, não era ela. Dela mais não precisava, levantou, vou embora, viu a maçã caída no chão, deu meia volta, foi entrando devagar na sala do velório, já cheia e quente. Um choro baixo, agitado vibrava na sala, viu que com as mãos nas mãos do velho morto o garoto chorava:
-- Vô, não, vô! Volta, vô!
Na porta de saída olhou para trás, distinguiu pessoas rindo e chorando discretamente. O barulho que ouvia agora todos ouviam, um trator, é, um trator batendo no asfalto, obras. Foi embora, alguém ainda lhe tocou no braço, de olhos chorosos e, "obrigado, aquela maçã era ridícula, obrigado por tirá-la". Descobriu num estalo que violáceo era um ruído, nunca barulho, que existia em todas as suas células. Riu meio decadente, satisfeito, um ruído violáceo. Sou eu.


Dias depois a revolucionária funcionária da funerária foi despedida, mesmo com dois dias de experiência não se pode esquecer que decorar um morto, velho (ou qualquer outro), com uma maçã entre as mãos fere as pessoas, ainda tão Vermelha, chama atenção.
27/ab/2006

quinta-feira, agosto 10, 2006

Isso

Há um limite nisso,
Céu claro, vento sul
O pequeno galho mostra o caminho
O branco de teus olhos acabaram?
Letras dançam a incerteza
Entende o futuro?
" Querida, não espere por mim..."
É isso, o fim passageiro
" Brinde com o senhor..."
Bela letra em tom
de súplica é o que quer!
" O lago, o peixe, sabes que..."
Está tudo calmo, não se
preocupe.
Nobre argumento civilizado
Olha de Soslaio!
" Não pereça...som..."
Honrado cavaleiro,
animou o vento?
"Selo a carta com..."
A tímida morte!
Meu senhor, brindas comigo?
Lindo mar, barulho...
Não digas nada!
Com a espada na mão gritas?
Quer paz ?
"...prefiro a guerra."
Meu padrão.



Isso já é antigo, essas coisas de poesia, num sei se é, acho que esses escritos são meio a meio uma metade, não é poesia, sei lá mesmo. meus quatro pontos:
.... pode ser reticências e depois um ponto final ou o contrário.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Mãos: 12:25









Interno. Mostrando só o rosto. Olhos fechados. Abrem-se os olhos. Mostra-se os óculos entre a mão direita. Os óculos caem. Ele pisa nos óculos, ri pouco. Repara na pia metade branca, metade prata. Sai correndo da casa.


Vê ele lateralmente. Ele corre e vai suando, como está parecendo, flui. Mas é terror que se vê em seu rosto e é. Queda e sangue. Sangue na calçada. 12:25hrs. Rua cheia. Ajuda. Ajuda ajuda. Toda a ajuda em sua possibilidade veio. Quebrou dois dedos da mão direita; forçou mais a mão esquerda, canhoto, na hora da queda e a quebrou inteira, unha saída quando tentou levantá-la. Com essa mesma mão, deu um tapa no bombeiro que queria ajudá-lo. Ajuda. Um outro o segurou por trás. O detiveram. Ele gritou, era dor e pânico. Loucura. Mesmo porque, te prendem. Um homem da confusão saiu e – dir-se-ia louco? - lhe meteu um soco, não havia óculos, não. Ele desmaiou. O homem tentava ajudar.
Nem tudo é branco no hospital. Quem conversa com ele, poderia testemunhar que ele disse: "vim é numa ambulância sem ninguém, ninguém dirigia.", e assim era se acreditassem. Agora não tem sol, mas não é noite ainda
As mãos enfaixadas, engessadas; o olho vermelho e com pontos, roxo mesmo é difícil. Sua mágoa é profunda com a unha que não está mais ali e lhe causa dor no dedo. Toma coragem, encosta o braço na enfermeira e diz:
- Não participei de guerras, não fui gente de nenhuma batalha, não fiz revolução. Não sou revolucionário.
- Não se preocupe, você não vai morrer, disse a enfermeira.
Ele pulou semana depois um muro, ainda não sei porquê.



Pela janela ele, descobrindo os óculos, no chão. Viu também a pia. Prata e branca. Sabe-se que sem as mãos não se ganha guerras e revoluções. Nota-se o olhar conciso frente ao espelho, que ele não queria mais. Espelhos, ah! Mas uma vez o mundo não está aqui. Depois os relógios marcam 12:25. Ele não corre.
27/jun/2006


sábado, agosto 05, 2006

que

que hoje é sábado se sabe.
sabe também mais coisas
explica-se regras
muda um
sunday morning novamente
rola a bola pro gol
mede a teoria novamente
pat sematery
de todos os casos:
ocioso,
por que os loucos haveriam de se cansar?
- tomates mofados em esquinas-
vá ver se estou lá na
esquina. quem?
disse isso.

quarta-feira, julho 26, 2006

Um conto: introdução e suas três partes:



Os Objetos Sem Motivo

Na Carta


O escritos julgam-se cartas apáticos-apáticas, respectivamente : escritor e carta. Por exemplo, lembra que você sempre quis escrever isso?
Senti-me mal: alguém disse que escalavrou a mão com uma faca de cozinha, olhou mais para mim bem nos olhos, disse mesmo: “Escalavre a mão, pra ver er sentir.”, foi assim, com esse erre depois do e, eu não poderia rir, há palavras que mesmo erradas dizem, não posso dizer que palavras erradas digam muita coisa. Há nos tons pardos a fatalidade da vida, quem ao menos disse isso? Fecho aspas sem abri-las. ”.
Fechei a porta e veja você, quem está com tanto furor tentando entrar? Ah, como me lembro de você! O que me enfurece é escutar tanto o que eles aqui dizem pra mim, e o que mais? Estão brincando! Dizem que as paredes têm mais força e armadilhas que cadeiras!... Como você é linda, palavra! Que posso falar do dia de hoje, vou te contar que abstraí algo, como digo, sou importante. Primeiro vou dizer que mudei um poema do Drummond, coloquei meu nome, porque é meu! E além do mais: Abstraí. Toda minha idéia é horrorosa, a idéia de duas cadeiras uma em cima da outra, tudo isso faz parte de uma história, essa:
Vejo rostos, todos de perfil, as silhuetas: nariz, boca, queixo e a curva dos olhos. Sempre coisa de criança. Parecia que viviam, eram silhuetas humanas feitas de sombra de vários objetos. Isso mesmo, como aprendi. Nem me lembro.
--- Quem é que vai escolher?
Sempre escolhe o mais sabido.
Eu. Sou crescido na angústia, cala! do egoísmo, satírico. Crio. Sou descritivo.
A história:
O barulho da fita cassete, fita já velha, toma chá de fita, toma! Era voz severa. Agarravam-me e não me deixavam sair. A chuva tinha transformado a terra em barro, não se escorrega no lodo, não cai, tem mais gente. Como num oásis, água e o verde; paredes dos vizinhos cercando, para dizer que ali fora, a cidade. Isso é como memória. Nem lembro, só vi os olhos ariscos, não juntei barro, mesmo se juntei, marquei o barro. O sol faz os olhos quase fecharem, por exemplo, depois que a chuva acaba, se ele aparece. Mas sou um anti-exemplo.
Tente ouvir sempre ao fundo, como música, o barulho da fita cassete, a fita voltando, retrocedendo, indo. Havia tanto frio, o céu nublado, eu com uma vara matava mosquitos que pousavam na árvore; matava um, eles fugiam; tempo depois voltavam, matava mais um. Não pode ter acontecido isso, no frio não tem mosquitos, deve ter sido no calor, foi no calor, moscas no calor.
Brincava ridículo e sabia que me olhavam. Matei tanto daqueles insetos que não dormi por causa de suas patas, trouxeram todos eles: traças, moscas, larvas, lagartas, baratas; todos rastejantes, sedentos. “Não pára, o veneno é fraco!”, as abelhas, elas voavam.

ANIMAL PLÁSTICO



Debaixo da mesa, trilhando o futuro. Saí, mijei no escuro, mochila nas costas, esse é o mundo, esse mundo!
“Eu vim para que todos tenham vida, que todos tenham vida plenamente”. Atrás do girassol, perto do poço, foi ai que percebi que era lúcido e são e que ficaria como hoje: maluco, doido, doidivanas, louco, às vezes iracundo. O galo “cantou” às duas e meia da madrugada, bom, havia dias que ele “cantava” às duas e meia da tarde. Estava na fazenda de minha avó há uns dias, aprendi logo que a água é fria e quando você ri é mais fácil. Não pude ir embora de lá como queria, mal me sentia à mesa olhando todos me olhando, sentados naquelas cadeiras. “Pára, respira mais, seus olhos ainda não enxergam.”
Cobicei a empregada jovem e peguei manga do pé, mas te olhava e sempre, sempre como* o barulho de fita cassete, te lembrava. Me juntei aos mais novos, nós quatro fomos matagal adentro, apostamos corrida, se perdemos, me assustei com o rosto do mais novo: Ele se assustava com o homem ali na frente, sem uma orelha. Nós corremos. Se encontramos. Aquela mulher olhava pra mim severa, quando estava distraído me batia, um tapa, de chofre, na testa. Todos aqueles mosquitos e abelhas me vinham à noite. A rainha delas, enorme, batia as asas e eu parava de pensar, depois pensava em números: 1,13,1,2,1; depois dormia.
--- Você tem nome?
--- Tenho, me deram quando tinha três meses, é Jofre.
Ele falava mais bonito que eu, era mais bonito, tinha nome melhor. Odiava-o e gostava dele. Mas ele não tinha você, meu trunfo, eu tenho inveja minha querida, eu tenha esta discórdia na linha.
--- Meu é Dominico.
Lembra que quebro sempre a história e que disse você pra mim: “Por que não te chama Carlos?”. E eu Dominico!
Segue a continuação: Decidi deitar ao sol, braços cruzados embaixo da cabeça, sentia um pouco de dor nela. O galo apareceu, me olhou daquele jeito de lado, sem sentido. Levantou a cabeça, abriu o bico, balançou leve- leve a cabeça e soltou aquele grito esganiçado, olho fechado (só via um). Aquilo foi plástico, sintético. Meu braço vi como se fosse de um boneco; vi pessoas se tornarem bonecos. Como algo ineludível, por momentos me calei pra mim, me tornei tanto mais Inexpressivo. Achei-me só, em intermitências de memória e inexpressividade, me senti isso, isso desde sempre. O galo “cantou” mais vinte três vezes e era cego de um olho.

O GUARDADOR DE ROUPA



O guardador de roupa conheci quando voltei a fazenda anos mais tarde, a fazenda mudara, virara um simples sítio. O guardador era um armário velho. As crianças sempre um pouco perdidas, a avó morrera. Seguraram-me pelas mãos, me levando a um quarto escuro, o quarto da velha avó morta. “O vô não dorme mais aqui.” Tudo mudara tanto lá! Havia mais sol. Eles todos, os de minha idade foram embora. Eu voltava . Quando soltaram minhas mãos não notei na porta do armário o rosto que elas me disseram que viam.
Esqueci-me, pra constar: vai juntando ao som da fita cassete um som de asas se mexendo devagar, crescendo, crescendo, como para voar, mas sei que não dá para imaginar esses barulhos sempre, eles vem tão fortes em um só momento que se esquece deles muito, mas é trilha sonora que some e grita.
Lembrei: Sentado estava na cadeira perto da porta, estava todo arranhado, entrara na floresta. Ela me tocou nos braços, fez sinal de silêncio, “ eu não tô, diz que não tô!” falara alto, a pessoa que batia na porta sabia que ela estava ali, “fala que não tô!”, correu assustada, entrou no guardador de roupa,
--- Ela não tá!
Um dia alguém abriu a porta do guardador de roupa, a olhou, nada acontecia.
Agora que as crianças saíram do quarto. Escuro. Arrasto-me, se esgueirando, sento na cama e vejo dali a porta do armário, as manchas de madeira velha se juntam tão formadas. Um rosto de frente, magro, cor de madeira envernizada, um chapéu pequeno, um olhar expressivo, se não digo como era a culpa é minha. Eu vejo rostos e eles são mais vivos que a inexpressividade. Meu outro avô que sumiu logo depois se parece com meu pai e comigo. Eles aqui estão andando, quando seus pés sobem pra logo depois pisar o chão em passos rápidos dizem segredos que eu não entendo. Não junte esses passos com os barulhos de que falei, junte um ranger de guardador de roupa.

O PLURAL DA CADEIRA

Nem sei como digo a última parte. A ação do tempo foi mais fraca em quebrar minhas pequenas verdades do que a casa de minha avó. Via de longe o que não enxergava e por isso não pressenti, vislumbrei ou senti a morte de meu avô. As crianças foram embora, fiquei sozinho na casa, fiz um favor, estava sóbrio. Meus olhos caídos me derrubaram, sozinho, não me manifestava. Mas me agitava, o coração batia e no anacronismo do momento andei sem levantar os pés, sem segredo, mas é preciso levantar os pés. Andava pela casa. O guarda-roupa se mostrou, não vi rosto, derrubei-o no chão, antes dei o galo ao vizinho, fica com ele.
Percebi minha respiração, agitação. Vai esquecendo os sons, nem fita, nem asas, nem portas, vai esquecendo a imaginação. Eu pulava! Agitação de rir: começa, devagar, abre os lábios e gargalha, sabe como é? Fui correndo, gargalhando pela casa, tocando as paredes com as mãos, voltava, tocava novamente e ria. A luz do sol iluminava tudo, a poeira subia, brincava mesmo! Tinha medo e o escondia pulando. Pulando sem parar emprestava ao medo a alegria e tirava-lhe o instinto que sempre achei que não tinha, ingenuidade minha.
Dentro do quarto do meu avô, senti o puro medo, que subjuga alegria e nos permite pensá-los em tubos de ensaio: o medo líquido. Todas as cadeiras são armadilhas, mas eu não entendia, não mesmo, o que são duas cadeiras, uma sobre a outra, elas juntas não eram uma armadilha. Só entendo agora, porque aqui as cadeiras são poucas, duas assim, juntas, são o que há depois da armadilha.
Estas cadeiras que via eram mais terríveis que o infinito que se apresenta quando um espelho é colocado na frente de outro, era maior e mais atmosférico. Se o galo emitia inexpressividade e o guardador de roupa capturava expressões, estas cadeiras eram a própria Inexpressividade. Não tem enigma nem invenção e poesia e é pior porque está dentro do tempo e da vida: é perecível, porém em cada momento mais eterno que qualquer ser vivo. Estas cadeiras não me permitiram chorar, são a abstração de minha mente. No chão com as pernas tortas não respirava, como quando o vento não deixa seu rosto. Com você as cadeiras não quebram, mas ficam tortas! Isso é bom. Não vivencie isso, lembro que falou da morte, ela parece misericordiosa, mas mais fraca, a escolha é isso aqui.
É tudo que acontece quando não se escolhe, são objetos que ditam as coisas e nós os escondemos. Os arredores daqui emitem chiados, os barulhos de que falei. Como toda brincadeira tem um fundo de verdade, toda vida tem um fundo de abstrata. Percebo agora que sempre quis tira-las de mim: as cadeiras, quando as vi, notei que fora elas funcionam do mesmo jeito. De tudo isso que é verdade eu brinco: Estas cadeiras não existem! E se te vejo te digo: O som pára quando não respira, como quando as folhas das árvores caem e está calor, o clima seco, o pó e o cheiro das folhas seca se espalha, você não respira, você ouve e aí, se cogitou ser abstrata, então não é.

Dominico

P.S.: Abro aspas depois de fechá-las: “.
D.



Clayton Camargo de Araújo Julho/06

domingo, julho 23, 2006

Escalavre

Se mantêm e
amassa o papel na
tua mão
Traz realidade,
olho enraizado, olho doente
gramática na carne
Vê no mesmo lugar
No espaço e mesmo momento
o copo, o sofá, os trejeitos,
Casa sublime, sons e som
A cor dos cantos mostrada
como se fosse do centro
Tudo na mesma imagem
Forma nada amorfa
Gente fluindo, caindo
Enredo sem acontecer
6/jul/06

passados os segundos ainda se procura..... se se se se
depois os pontos: ....

sábado, julho 22, 2006

2

Parou. Olhou em torno do convés que, ao balançar, deixava-o eufórico, pensou no vento em seu rosto e na escuridão marcante. Pare! ouviu-se gritando, mas a última pessoa já se tinha ido, e agora? Nada, correu, e se equilibrando na borda do navio, ainda pode ver o Capitão lhe acenar, assim respirou fundo e se jogou, o mar o tragou logo. O Capitão ficou a balançar, só, no navio, talvez junto com alguém que, triste, não conseguiu se mexer. O navio afundou. Nota-se, ao colocar-se junto à parede um langoroso som: caído.



Lugar Dele


Esta é uma história sobre Carlinhos, e Carlinhos, como é normal, não gosta de ser chamado de Carlinhos, isso não é novidade.
Perceba que ele pode ser diferente, quando, por exemplo, acaba a tinta da caneta e ele a joga no lixo, com raiva, ou ainda, quando a caneta começa a falhar, ele continua a tentar escrever riscando, freneticamente, nos lados do papel, em um pequeno e quente ciclo destinado ao fim, do que esteja fazendo.
Pense bem, o que isso tem de diferente? Nada, como este texto, que é basicamente igual a muitos, tentar mudá-lo? Sim, mas seria difícil, tudo bem, meu pessimismo me diz que não irei conseguir, vamos tentar:
Correu, rapidamente, ocultando-se da maioria, olhou em volta, sentiu um cheiro, um odor, é ele.
--- Carlinhos, Carlinhos!...
Oi, disse Carlos, que não chamarei de Carlinhos. Aquele era Jordan, tinha sangue nobre, era de raça.
Carlos o acompanhou até a estrada norte, ficava do lado do cemitério, não estava de noite, então não ficaram com medo, entraram.Sei que não está diferente, mas continuo.
Túmulo 14C. É seu, disse Carlos pra Jordam, Vai ficar aí quando morrer, completou.
--- Seu paspalho, num vou morrer não, ainda não, tu nem tem reserva aqui, fica quieto.
Depois do pedido de desculpa, Jordam se acalmou, Percebem a distância? Entreolharam-se, admiravam segundos antes o túmulo 15C, era Ana Cristina, a dona o apartamento 183, do Palace Ben, tinha se matado. Deve tá toda estraçalhada, né? Perguntou o jovem Carlos.
--- Deve...
Foi aí que entreolharam-se. Saíram de lá às duas, pense. quem se assusta às duas? Carlos e Jordinha andaram normal, fingindo segurança, depois, correram como crianças.
Jordinha parou perto de sua casa. Quer entrar? Perguntou, a resposta:
--- Não... tu achas que consigo chegar às duas e meia no Hospital de Sun?
O Amiguinho de Carlos não respondeu, perceba a ação: O silêncio, não, não é isso, só que os dois sabiam, sabiam a resposta.
--- Não... não, eu sei -- respondeu a si mesmo Carlos -- já vou, tchau...
Acha que ele responderia, tchau amigo, pró Jordinha? Não mesmo, pense, eles não eram amigos, o tchau é importante, o tchau não é mais importante. Trevas e horror, se não era isso, como seria um filme de terror? Sem isso... num seria.
Atravessou a Rua Marca, tomou devido cuidado, passa carro,
passa carro, mas ele conseguiu! Chegara ao hospital às duas e trinta e dois, ficou calmo, nervosa , mas passou logo, calmo. Fez umapequena curva, subiu a escada velha, contornou o Objeto aos Exploration, olhou com graça pra eles, parou em frente ao quarto n.º 696, não antes de forçar um "olá!" Para a enfermeira Gude. Entra num entra? Entrou, olha em volta, onde estará? Procura, procura, olha, tenta, não vê, perceba, ele queria. Onde se encontra? Pergunta ao enfermeiro loiro que diz um simples "saiu" e retorna à sua sala 14b do segundo andar. Carlos não controlou sua mente quando perguntou:
--- Por que o quarto nº696 fica no 2º andar, se só tem 10 quartos em cada andar?Não ouve resposta, pense, só ele ouvira a pergunta .Nebuloso, era o dia, quente também.
Viu-se num enigma: Onde andará?O porquê?
Carlos sabia que tinha uma pista, o quarto, isso sim iria ajuda-lo, primeiro, olhar pela janela, bingo!O carro não estava lá, Carlos se atrasara.
Houve depois disso muita briga, Carlos não poderia ter chegado atrasado.
---Não podia, eu sei ...
Ouviu-se então uma voz sorrateira, já haviam rido dela, porém leve, lenta, como se estivesse ao vento, temo pelo final, quem o entederá?Escrevo não para mim, mas para os outros, estou com medo, fiz meu tanto, lá vai,
...Era uma voz calma, leve, horizontal que disse ao léu:
--- Paroxismo...