sexta-feira, dezembro 29, 2006

Sangue Súbito com Vírus

Um sol que batia nas pedras grandes do muro
era quase verde, que batia também nas árvores.
manchava olhos e testas,
contribuía com a tentativa
de se crispar os dedos num poste,
deixando alguém baleado atrás
deste poste, mas só lembra em momento morto
só para criar intrusos que consomem velas e
vigiam por tempos a cera derretida –
Sub-repticiamente rindo, das besteiras – .
turvando o tédio nas cópias das mãos,
suas mãos não são iguais.
enregela na alma a dor da sensação
e a alma se espalha pela cama e pelo quarto
pela sala, pela madeira
que bóiam metro pós metro no sentido dos Homens
na luz do sol.
Esqueço o centro – centro mesmo nunca mais.
CCA

durante o dia




Durante o dia não pôde, por isso só à noite é que entrou na piscina. A água gelada o fazia respirar pela boca, arfava. Mergulhou também a cabeça. Já sentia o azulejo com os pés, quase escorregou na escada. A toalha está um pouco molhada, como sua ponta ficou encostada à água, ela subiu pela toalha. Enrolado nela, antes de ir, ainda sentia mais frio por causa do vento.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

maiores detalhes

O depois da reação
inscreve pelo tato.
Quando anda sente as ruas
que sobem pelas pernas,
realidade pela violência,
corro a salvo sem fôlego.
Se grito com os dentes cerrados
o tempo não conta.
O carro que vem na minha direção
é calmo. Não danço, subterfúgio.
O que rasga de minha pele, o que
racha de meu crânio avermelhado,
o que morre de minha células da cabeça
é tão pouco. Eu no chão atropelado.
Isso que o sol queima até o que
se pensa, ação.
Carrega a cabeça fraturada e células
do cérebro coaguladas, inchadas
por lá que respira e teima
anda nas ruas ou suas pernas.

20/dez/2006/ CCA

sábado, dezembro 16, 2006

Esperando Godot

Pela janela passavam risos medrosos, gargalhadas, sirenes de polícia e se notava o barulho que o vento fazia quando batia nas árvores e nos muros. Seus dedos seguravam um copo. Quis saber das horas, era ruim ficar preso por aquele tempo. Desviou o olhar do copo para o fim da mesa, lá estava muito escuro, acendeu a luz que correspondia. Começou a comer um pedaço de bolo, sentado; engolia com certa dificuldade, não que o bolo fosse duro ou velho, também aproveitava para beber o suco de uva, esse sim velho. Esse frio tão incomum, ficar iracundo era inevitável, pensou ele. Esperar e esperar era para si mesmo. As paredes vermelhas pareciam que iam derreter, sala vermelha e fria.
Passos lá em cima, bocejou um pouco. Alguém começara a cantar. Cantava com força, mas era claro que parecia ser um preso qualquer. Pára de cantar, gritou ele, seus tontos, idiotas. Andando ao redor da mesa, levantou algumas garrafas, ouviu agora a sirene de ambulância – alguém morre hoje. Foi colocando as cadeiras uma em cima da outra, não gostou do resultado, abriu uma daquelas portas do fundo, arrastou-as para lá, trancou à chave , mas voltou ainda para pegar uma, com ela perto da janela ele olhava para fora, chuva forte.
Um rádio fazia barulho, já fazia algum tempo quando ele notou. Tentou fingir que não ouvia, mas não deu. Sentiu um pouco de raiva. Foi até uma caixa de interruptores, mexeu em um, o rádio parou. Com garrafas vazias numa sacola, com força fechou uma porta e estava no lado de fora, sua capa de chuva era curta. As garrafas faziam barulho, umas nas outras. A chuva reta entrou, pouca, nas garrafas, ele agachou e virou-as devagar e com frio, deixando-as de cabeça para baixo. Voltou à casa. Não viu que as garrafas caíram no chão e refletia, uma luz amarela.
Percebeu que havia dormido um pouco. Uma música antiga toca no rádio, outro.
Anda um pouco, lava o rosto, a pia velha como toda a casa. A água parece estar quente ou é o frio. Aperta a cabeça com as duas mãos, está com dor nela. Fala alguns palavrões, mas a dor não some. Não sabe onde ficam os remédios, esses frascos e comprimidos. A música pára, dá-se aquele momento entre as músicas. Ele desloca a chave daquela parte para o rádio parar.
Esperar mais não queria, já era a segunda vez em uma semana. Do seus ombros descia uma dor que fazia os braços pulsarem, acreditava que era por causa da espera. Tinha a impressão de ter sol lá fora apesar da noite, o que aumentava sua dor de cabeça. Se encostou o máximo que pôde na cadeira e dormiu. Não podia ser outra coisa que um grito surdo, que fugia das sirenes da polícia, todos sentindo o vento na noite, gargalhando dos que eram vistos agora, achando que a noite é uma espera.
Ele esticado à cadeira, decidiu resignadamente esperar, acontece que nem bem amanheceu o dia ele estava morto, mesmo tendo antes decidido que esperaria, lhe ficou na cabeça que sua quarentena, ainda que intermitente, somava quase os quarentena dias que teria que ficar lá, ah ele sabia que podia morrer.
CCA

domingo, dezembro 10, 2006

Cantos Climatizados



Os animais que vagueiam
eu não sei. Como obedecer
comandos, perco rumos.
Traços num papel feito
de mapa dá nisso.
Todo um espanto do lado
esquerdo, estende a mão
direita
Com a frieza dos Homens
e a mão de algum carrasco.
Penso nisso pra passar sem
o que não há. Calo baixo
a minha cabeça. E
escuto, matando os tempos
de jogos da dispersão
a pílula diária
da resistência
Para deixar, como a morte,
o medo da inconsciência
por causa dos corpos distantes.
CCA

9/dez/2006/