segunda-feira, julho 01, 2013

eu ainda louco eu ainda vejo eu ainda cinema

a câmera visita
como num filme curto
que você não gosta
os passos

ou não vá embora na metade
da sessão
ou no duo ao piano tocado ao dente

desumano o sopro não da morte
apenas do adeus
fecho os olhos enquanto subo essa escada
degustada em horas de alumbramento

o cacho dos olhos escorrem
feito o amor naquela nossa tempestade
tudo está onde não vejo, filme e seus ossos
um vento sem nome, ainda um esquecimento.

quinta-feira, junho 20, 2013

no rosto da minha sombra

a certeza de nosso encontro

sábado, junho 15, 2013

quem nos viu nascer

oswaldo goeldi
a crust of bread
ou tudo que nos sobrou
enquanto a beleza do aerossol
entra por la ventana

not only kills the flowers
como  dissesse que
esqueci de quando me interessei por você
qui m'a jamais dit

estamos perfeitamente sãos e isolados
porque nada nos ocorreu
moramos nos países dissolvidos
por oceanos microbióticos
sei que você não veio das profundezas
só para me encontrar como num sonho

mas ainda continuarei traduzindo cada migalha
deixada por você no meu caminho.

domingo, maio 19, 2013

Cecília Meireles

Conheço a residência da dor.
É um lugar afastado,
Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,
Com umas imensas vigílias diante do céu.

A dor não tem nome,
Não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
Nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.

O rosto da dor está voltado sobre um espelho,
Mas não é rosto de corpo,
Nem o seu espelho é do mundo.

Conheço pessoalmente a dor.
A sua residência, longe,
Em caminhos inesperados.

Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores.
E ouço dizer:
“Quem visse, como vês, a dor, já não sofria”.
E olho para ela, imensamente.
Conheço há muito tempo a dor.
Conheço-a de perto.
Pessoalmente.

- Cecília Meireles

quarta-feira, maio 15, 2013

viagem

é perfeitamente adequado
eu esquecer a poesia
e me dedicar ao ódio
e dele mesmo me esquecer

não sou eu e é a ele por quem ando
para que seja outro homem
nas mesmas pernas
na página imaginada
onde nunca escrevo

mas morrendo agora mesmo
terei certeza de que o que sobreviva
respire?

ou
amor
ainda não
ou nunca mais
amor

ou pelo menos olhe
não para a queda, não para o chão
nem para si mesmo
mas para tudo que foi rasgado
e rasgue mais

terça-feira, abril 23, 2013

mais um caso

não quero matar
a sangue seco
e piscar os olhos freneticamente
enquanto vejo

as horas que nunca existiram
os passos que nunca existiram
as módicas esperas que não existiram

eu retiro
o corpo diante do espelho
inteiro por onde não andamos
o que veste hoje

mas senão assassino o que sou
se é a única coisa que ressoa quando escrevo
ou te vejo, pessoas há muito mortas
me acusando de seu infortúnio

e um detetive me persegue
assoviando Chopim entre dentes
amarelos e podres e fétidos e pegajosos
é claro que pra ele é só um caso a mais.

quarta-feira, abril 03, 2013

nada de errado

Não há nada de errado
em tomar um café à noite
e cair no escuro do
seu olhar me notando

ou doentes
e suas pílulas assim
que acordam, viciados e envegonhados

ou rancor no verso entre a porta e a cama

ou quem morre pela tarde
como se logo mais
encontrasse.

segunda-feira, março 25, 2013

ateus




por que não transforma mentira em verdade
não rezo mais
não me possuo,
então, nos mais rachados pedaços
que sofra não estando ajoelhado prostrado
ferido, não rezo mais por que não
transformo em aceitação estes seus olhares
e  aqueles do passado
e ainda os que virão e também os que não existem
por que não rezo mais, entende
que o que me sustente é o mal
os horrores, perversões
e o ingenuamente bom,   que me prende
entende por que não ainda
 ando ao seu lado só  na claridade dos corpos
na escuridão dos cigarros apagados
que  te compreenda você  não entende
em todas suas argilosas manias em todas suas agonias malditas,
por que não rezo mais.

quarta-feira, março 13, 2013

Drops

drops
gotas
sua possível ausência pressentida a quilômetros de distância

folhas
(que você atrai antes da) chuva
essa agitação (de luz até) com olhos fechados.


agora não sei se foi embora (ainda)
você e o que comemos no café
guloseimas
flores
carne e maldades
tão bom que as mãos também não sobraram


tudo é escrito

sexta-feira, março 08, 2013

Encontro


Éramos muito unidos e
há três
meses
navios se afastavam
 escuros
a noite partindo
 na noite
dispersos nossos abraços
inéditas sombras e bocas
nos comunicavam
o que hoje não
há mais
hoje nos arrumamos
pela manhã e
cotos brutos belicosos
comeremos juntos ainda
novos
ao meio dia.

quinta-feira, março 07, 2013

O Cachorro Azul



Certa historia indefinida, magra e que andava arrastando correntes no chão, uma história fantasma. No caminho para o trabalho eu acordo. Eu acordo e ainda é noite, o dia não passou. Percebo que tenho essa falta de olhos nas horas. Pensei que poderia estar na janela e uma brisa leve e fria no meu rosto. Definitivamente não quero me importar com outras pessoas. O celular toca, e um favor, buscar meu sobrinho na escola. Com o sobrinho eu me importo. Corro, já está noite. Meu sobrinho aguarda com uma cara qualquer, alheia. Tem sete anos. Ele diz que gostava quando o levava de moto. Me faz rir. É um menino quieto, se parece com o pai. Às vezes pensava que a melhor relação que poderia ter com meu irmão era com o filho dele. Meu sobrinho era impressionado por uma história em especial, O Cachorro Azul, que é uma história contada na família. Minha mãe tinha terror de várias coisas, mulher muito temente, uma de suas superstições tratava de cães brancos, os machos. Não se podia ver um em dia de chuva ou que ia chover, e mesmo que tivesse chovido no dia anterior que já ficava tremendo. Isso vem de quando era pequena e a vizinha lhe falava do cão branco e contava a tal história. Num belo dia uma senhora muito gorda passou pela rua e disse (para essa vizinha), ‘que vai chover, só espera’. Logo às onze da manhã, um mendigo conhecido da rua, passou comendo um cenoura e disse ‘olha só aquela nuvem gorda’. Mas a vizinha investigou o céu e nada viu. Às três da tarde uma criança vinha correndo e deixou alguns de seus pertences cair, a vizinha ajudou, e na dúvida, quis saber daquela pressa toda. ‘Minha mãe disse pra eu não sair, que ficasse atento, se começasse a chover eu tinha que tirar todas as roupas do varal’. ‘ Mas, garotinho, hoje não vai chover’. A criança tranquilizou-se. “Só que se chover o meu cãozinho branco vai vir pra te morder”, ela gargalhou do que a criança disse. (Nesse momento minha mãe parava e nos olhava como se esperasse mais alguém chegar) Nenhum cachorro a visitou.
Entrego o sobrinho. Todos ali com cara de assustados, todos minha mãe. Entendo que algo horrível aconteceu e que é pra passear com o garoto, o próprio agora já assustado. Que não vida.