quinta-feira, outubro 04, 2018

Fim

Faremos um dia
uma autópsia
examinaremos a nós mesmos

sem recurso cortante
mas mãos que tremem

os demônios já cansados (e azuis)
as palavras já desencontradas (demovidas)

noutros sentidos a angústia
camaleão e polvo nos restarão

dos sentimentos restos deixados
na praia depois dos milênios 

o mar voltará vingador
o final em silêncio 

por que as palavras que ainda
usaremos não terão outro 
significado que outro significado.





quarta-feira, julho 25, 2018

Onde

Esquecemos aquela pessoa
antes por meses
tão à espera de se ver

digo
eu esqueço a música
nunca esquecida durante
aquela semana

as palavras perdidas
na memória
guardadas no papel
um tanto úmido e mofado
(e em blogs nunca visitados)

ou tudo isso pode ser
como estações do ano
a certeza que a chuva volta

Só o que fazemos é esperar que
voltem
as conversas calorosas e honestas
a música que comove
a escrita que nos justifica
eu me indago

Será isto grande parte da vida
ou a vida em si
ou só eu penso assim
enquanto todos continuam
futuro à frente

e não param todos os dias
na calçada e fingem procurar
o nome da rua
quando na verdade
pensam onde foram parar
todas as coisas.

terça-feira, julho 17, 2018

Um dia

Não sou mais aquilo que pensou
o rosto ainda permite esconder?
seus suores bons e ruins

no rio que mergulha o frio
a corda tensionada e áspera

rios que sobem
árvores que andam

no pulo eu flutuo
a rasa ânsia como lembrança

não posso lembrar de ninguém
enquanto não esquecer de mim.

Não seria

Poderia eu ter sido mais alegre
luz seria vista pelos dentes
girassóis que nutrem apertos de mãos


seria então uma chamada perdida
a depressão
o desejo tão profundo
do não desejo de viver

grandes livros lidos
enquanto se abre a janela
o dia frio o dia quente
um dia assim

Mas não espere isso
é só
a volta acontecerá
para o nada
é só.

E é bom.