quarta-feira, março 08, 2017

Bom dia

Escondo minha selvageria
minhas pontas dos dedos sujas
no ombros fortes
no gelo fino
na flor uma semana depois de colhida

os pássaros tentam alguma naturalidade
enquanto cantam em cima dos postes
não posso deixar de imaginar eu
pássaro magro e negro na claridade das pessoas
ao redor

a carne e o vegetal
ainda sofrerão por muito tempo
ou eu é que imagino
corpo e alma, as nossas
que enquanto juntas ainda posso
imaginar

mas sou então algum feiticeiro
escuso, um necromante
ou quem me vê não sabe
que estou relendo as mensagens
mesmo no bom dia
ininterruptamente.


domingo, fevereiro 05, 2017

novo coração

Por fim nos dois temos razão
o frio não foi tão fundamentalista, mas acumulatório
Kafka era sim alguém de praia

Os ratos o feijão dá conta
e a madrugada o cachorro decidiu ler
o silêncio pela primeira vez é asqueroso

e abre a porta como se entra numa seita
mas você evapora começando por suas mãos

A história termina durante o almoço
sem amor

domingo, janeiro 22, 2017

Origem de um rio

grandes mãos de pedra áspera
deitam minha cabeça
com gentileza

para longe do meu corpo
na confiança de quem fecha os olhos
conheço seu calor humano

durante todo o dia
o leve toque da grama 
então o rio congelado

nada machuca minha pele
e esqueço toda a violência
e todos os meus cadernos

o rio não é fundo
mas não parece acabar
finalmente abro os
olhos enquanto escrevo




terça-feira, janeiro 03, 2017

como ser o que é (naquele dia)

As pequenas gotas daquela chuva
fria é o que eu precisava desconfio
àquela hora você também

o que não pude tomar você tomou
a máscara da descoberta descendo
a garganta. A ressaca que não virá

o dia continua seu pão com manteiga

Mas nós criamos clandestinamente
a Igreja Dos Que Sabem O Que Aconteceu Naquele Dia.