love for pandora






Os mil novecentos e oitenta já
passaram. Não adianta insistir
Mas você que enxerga tudo
azul quadrado retângulo roxo
Procurando num brechó,
num futuro. Não sinta dor
os mil novecentos e oitenta já
voltaram. A televisão mostrou

Fim

Nada ferirá o mundo do que você fizer
que continuará sempre o mesmo
Inexistente dos meus e dos seus gestos
Cansado mas adrenalizado nos eclipses nos vulcões
sem saber seu final
Imaginando um abraço amorfo que simplesmente
seja o que queremos


Resumo do dia ou Natural

Nada que eu faça se iguala a infantil
Nada a uma prece fico a beira sempre
Chance Mas hoje todos oram. Se combina
Mestre Nunca pude ver isso e não e
No mato vejo agora. Não ganho de obras
Dos nada, eles ganham tudo meu seu
Livros não se pode, insistir no rato
Das pala que insisto, e estar leve possível
vras e poder ganhar. Obreiros do número
das Sobra-me o meu humor, o de morte
margens bom humor. E se o minuto questões
escan castiga o próximo o apaga palavras
dâlo nem que fique na mesma rara
paranoi no mesmo nível co e pornográ
Anistiado, réptil, submundo ao lado
Do o bando línguas estrangeiras
Suposto, molho das evoca fracas histórias





Tem Julio Cortázar, do capitulo do jogo da amarelinha (que, aliás, a Regina me mandou), e não quis de modo algum uma coisa que soasse criativa, sempre na tentativa de retratar o caos no chão do mundo, e de quando estamos perdidos, e também a liberdade pouco olhada que não segue linhas e deixamos escapar nesses momentos, nos que estamos perdidos, e que nos dá essa única coisa boa, a possibilidade de mudança.


seu própio nome




Seu Próprio Nome



Para Fabiane



Já escureceu. Na minha cabeça há vários dias isso não acontecia. Até escrevi “Será evidência de minha fuga” num caderno, vi essa frase num livro, nem lembro o nome e muito menos quem escreveu. Já tive um amigo que tinha um caderno de notas, ele anotava nomes comuns de outros países, principalmente italianos como Bonanno, Provenzano, Gordi, Riina, Denaro, Accardo. Eu mesma fui de poesia, quando pequena, mas um acidente com minha perna não permitiu que continuasse com as rimas, quer dizer, os versos que escrevia não eram rimados (salvo uns), não tinha mão nem pena pra ser poetisa. Provavelmente essa frase que escrevi no caderno é uma espécie, alguma forma de volta ao tempo de pena e da mão. Duvido que seja isso, sou sempre exagerada e assustada. Nervosa. Especulativa. Sensacionalista, busco vez ou outra languidez: me deixo na cama, ao pé do sofá ou engulo o jardim que existia na minha primeira casa, quando ele e eu éramos cuidados por minha avó. Ela sim fazia poesia, com um ou dois livros editados e poemas em jornais, quando via esses jornais dizia que estava decepcionada, nunca explicava o porquê e se fechava na velhice. Ela não tinha homem há muito tempo, falava que não podia ser como eu seria, que eu poderia ir na rua catar homens à noite. Me imaginava saindo com um pote na mão e uma pinça na outra, catando e colecionando homens. Ficavam todos juntos mas separados por porção, dos morenos, branquelos e em especial os feios, sempre mais individualizados, mexendo os ombros, contrariados com alguma coisa. Esse calor. Meus sapatos ainda me cabem bem. Uma lua crescente um pouco encoberta. Na cidade vizinha houve pânico porque assaltaram uma loja famosa e cheia de gente. No sul o mar agitado, de ressaca. Me disseram que em Tibagi a chuva matou nove pessoas, muitos desabrigados. O tempo igual a clima mais espaço. Que besteira a minha, mas será que sou daquelas que quando não reza acha que não existe. Ainda lembro um poema da minha avó sobre o tempo. Seus originais e inéditos foram queimados por ordem dela quando estava morrendo. Um dia um colega de curso gritou comigo me achando boba, fazer esse tipo de coisa, eu não conhecia então autores que ficaram famosos por isso, porque seus parentes não queimaram o que escreveram. Fiquei sem entender.

Um dia meu pote de homens amanheceu aberto e chorei, eles fugiram, criança chora com facilidade. A vizinha riu dizendo que foi o saci. Como fiquei querendo o saci na minha coleção! Continuo querendo, tanto que quando ouço “saci!” interrogo a pessoa: quem quando onde quem que pessoa o que fez mas assim não é o saci o que é o Dionísio, não não o deus o mocinho doidinho da esquina é é manco o que ele não manca.

Já anoiteceu. Ando tão lenta e sem comer. Fico irritada mas: quando minha avó morreu voltei para os meus pais. No País de Gales uma criança morreu afogada, os pais desolados. Na Austrália ataque de tubarões. Os alemães choraram o suicídio de um jogador de futebol. Minha mãe ficou grávida de mim com doze anos. Meu pai tinha dezoito, fugiu, meu avô queria matá-lo. Casaram fugidos, talvez na Alemanha ou País de Gales ou Austrália. Fiz pequenininha um poema sobre esse erro, da gravidez de minha mãe, copiando um poema da avó, naquela idade eu só fazia poeminhas, era o que eu fazia. Me vangloriei um dia que era muito diferente da minha mãe e minha avó: Ninguém é igual a ninguém mas as semelhanças são tantas que quase num se diferencia, até assusta. Meu avô morreu quando eu era novinha, nem o vi, o que era bom segundo minha avó. Voltei pra minha mãe inchada de choro, ela também chorou e me abraçou, mas não caí na dela, sabia que não gostava de meninas. Estavam também dois irmãos. Um garoto que era meio-irmão, filho do meu pai quando este tinha quinze anos. E um garotinho filho dos meus pais. Meu pai só chegou no final da tarde e olhou pra mim.

Andava diferente com nova altura pela rua nova, passava mal por me forçar a não gostar de todos eles. Me afastei até da minha coleção e olha que tinha tanto homem novo, claro que ninguém me forçaria a adicionar meus irmãos, aqueles porcarias, na coleção. Dou risada dessas coisas de criança. Nem parecia eu, aquela aqui de hoje, andando por ali, pela rua, que não sou essa, essa menininha olhando de rabo de olho — pote e pinça na mão — um homem no bar, de barba ruiva, espreitando a hora certa de agarrá-lo, compilá-lo, armazená-lo, sondá-lo e contradizer-me. Um metro e tantos, mãos grandes, sapatos marrons, barba ruiva, voz que me chega de longe, bonita. Fazia às vezes essas anotações, dos que valiam à pena. Se hoje visse esse homem, do jeito exato que era, como o descreveria como mulher adulta. Forte, de barba ruiva e mão grandes que o levantam, sem fôlego, saído de dentro de mim. Quepoucavergonha, diria alguém. Minha mãe não podia dizer e minha avó não falava essas coisas, me repreendia muito pouco aquela velha que eu gostava tanto. Um acidente na avenida principal e um incêndio mobilizaram todos os bombeiros hoje e não puderam atender uma queda de criança, um ataque cardíaco, um susto de quase envenenamento, uma overdose. De qualquer forma tenho esse caderno novo e vou fazendo anotações, tudo bobinho, poucas palavras e assuntos, evoluindo devagar.

Já caiu a noite. Como um tipo de acordo eu fazia e deixava a porta aberta e via depois se o que pedia tinha se cumprido, aí era minha vez de cumprir o acordo. Minha avó sobreviveu numa noite e resistiu até quase um ano. A minha parte no acordo era mudar meu nome e como ela ficou viva bem mais tempo achei justo mudar também o sobrenome. Luísa Luciana, meu novo nome. Devia ter escolhido um sobrenome com cara de sobrenome. Saí dizendo pra todo mundo, muitos acreditaram que minha avó mudou meu nome e ficaram uns com inveja, os zenóbios, apolônios, afrânios, ubirajaras de não terem avó por perto, eu falei que só avó é que o governo dava o direito de mudar nomes dos netos. Minha avó: matou um serelepe, um ratinho, e abriu a barriga dele, que tinha comido meu umbigo, me salvou várias vezes

Queria ter me visto abrindo a porta da minha casa, de quando fui morar sozinha. Não confunda morar com morrar. Nem adequado com oportuno. Nem meus nomes. Desculpa disse pro senhorio, tenho essa mania de assinar meu nome de brincadeira, o senhor que me desculpe. Saiu nervoso dizendo ter que fazer outra cópia mas mesmo assim ele entrou pra minha coleção e ficou no grupo de gente como Johann, Ludwig, Heitor e Getúlio porque era músico. Surto de gripe no nordeste e de malária no norte, no Acre as duas coisas. Numa cidade aí tem dengue e furacão, primeiro furacão, aí depois de uns dias muito mosquito de dengue feito praga, pessoas com perfume de inseticida e roupa de redinha.

Manual de Luísa Luciana: não seja ambíguo e tenha umbigo, peloamordedeus. Bolo de chocolate com chocolate sem coco e não esteja peloamordedeus na minha coleção, aí quer dizer que já o esqueci. Como eu era pilantra. Escandalosa, altiva. Misericordiosa, cobra, serpente, carrapato, pitéu, guloseima, iguaria, manjar e petisco, incomodada. Fiz muita coisa de pretexto pra minha coleção, sei que não fiz com esse intuito, 1- experimentei maconha, 2- cheirei cola, 3- fui embora. Fiz essas coisas que colegas faziam, estava na casa deles, ficou péssima essa última frase, se fosse anotá-la precisaria melhorar. Mas fiz pra minha coleção, 1- ir numa igreja detestável, 2- assisti futebol de botão, 3- menti sobre as duas primeiras, 4- a lista vai longe.

É verdade que no escuro ainda há alguma luz, vejo com meus próprios olhos, diante dessa porta. Estou atrasada vários dias. Desculpa, é meu medo de raios, alguém acreditava. Vontade de ir embora falando um monte de palavrão. A porta parece só encostada. Tenho andado a noite toda. Deixou a porta aberta por mim com coisas acontecendo por todo lugar. —Vejo que você está bem, ainda bem que veio, três dias era seu recorde, você me disse, comigo se superou. Vou ficar na cidade mais tempo, eu posso, viu? Você fica quieta me olhando, andou a noite toda, assim acho que gosta mesmo de mim. Não, nem seus pais seus irmãos. Estou ainda na cidade. Peixe voador desconhecido. Inéditas partituras de Mozart. Gravação perdida do nirvana encontrada. Recuperado quadro roubado de Portinari. Nova espécie de homem achada aqui.



FIM



Poemas de minha Avó, Ana Clara Sombra de Montanha:



Minhas cinzas
Deixem numa
forma que está
Debaixo da cama

No primeiro trovão
Volto como sempre fui
Continua sendo o meu lugar
aqui



# # #

Alivia o olho
seco e vermelho
este colírio
que eu uso
Todo dia
pra outras coisas
coisas da vida —
do meu coração.



# # #

Vi um homem
magrica
de costas largas
e porte de lorde
mas magricela


tão lindo o homem
da minha vida
mas não era homem


esse homem tão
magricela
era a Estela.





# # #

que erro
erro erro
que erro
erro


de não ler o
que me falam
de não fazer o
que me mostram


que erro o deles

# # #



Não saio com a
possibilidade de raios
já está dito o porquê
Se quer saber o falso motivo
Quando o sol nascer digo pra você





# # #





Anda



Só o tempo
é igual ou mais
o tempo
só a memória é
menos tempo e Deus
que não está, tosse
E seus hiatos chegam
ventos e chuvas pra cobrir
os ossos do tempo em quem sabe,
nós mesmos, desistir de fazer as contas
e cobrirmos, nós também, com guarda-chuvas
e agasalhos, nossos corpos.





# # #


Enxergo muito bem
como uma criança
De madrugada
brinco sem ciranda.

strange fruit




De futuro inseto
Incerto
Traço num desenho
Deserto
Barco sem portas
Pratos
De restos de caldo
— sobra da forma —
Pra engolir

Finalmente...





Era um novo tratamento, um jeito. Antes já não me chamava de Mária, agora vinha com sobrenome de outros, de mulheres casadas. Ele via minha casa de pobre, pequena de poucos cômodos. Era filho de um herói, não era muito ligado a ele, mesmo que esse pai fosse muito presente. Hoje quem lembrava do pai o olhava esperando. Quando saíamos em dia bom pelas ruas ele não me beijava. Não me disfarçava. Era sem amor. Finalmente um tipo de felicidade sem amor.

M a c h u c a dos



Quando era adolescente tomava coragem e ficava durante a noite em lugares sem luz e abandonados. Sentia minhas orelhas vermelhas, o suor nas costas descia e me incomodava. Ficava sem respirar o máximo possível. Nada acontecia, não ouvia nada. Em casa, deitado na cama uma voz me falava algo que parecia lógico, sensato. Mas não conseguia entender. Minha angústia ficava insuportável. Isso acontecia na escola, o que me causava brigas e notas baixas e devido a isso meu pai me tirou da escola e contratou um professor particular. O professor sempre aparecia machucado ou doente. Minha memória é muito viva quanto a isso, ele aparecia com curativos no rosto, uma vez até com o olho esquerdo tapado. Um dia um braço quebrado e pouco tempo depois, uns meses, o outro braço. A aprendizagem ia bem, de alguma forma me concentrava e melhorei nos estudos, porém meu comportamento social piorou e fiquei um mês inteiro sem ver ninguém exceto meu pai e o professor.
Faltava meio ano pra terminar meus estudos e o professor repentinamente pediu demissão. Despediu-se, fiquei na escada, meu pai voltou minutos depois vermelho e afobado, — Chama a polícia!... não! Os bombeiros, ermegência!, me inclinei um pouco e o professor estava do lado de fora na beira da porta, imóvel e pálido. Meu pai ligou, mas quando a ambulância apareceu o professor já estava morto. Meu pai ficou abalado por vários meses. Terminei os estudos, com louvor, com uma professora muito habilitada. A professora tinha mais uma habilidade: fazer meu pai rir. As piadas bastante esparsadas e final astuto terminavam mesmo com meu pai rindo, muitas vezes às lágrimas. O nome dela era Inácia, levemente vesga. Meu pai também ficava vesgo vez por outra atrás dos óculos. Os dois tinham cabelo bagunçado e pareciam mais velhos do que eram. Meu pai menos, tinha 45 e aprentava cinco a mais; ela tinha 32 e pareia 40. Peguei os dois rindo um pro outro no sofá. — O refrigerante tá bom mesmo, disse ela.
Ficaram noivos. Ela nós visitava todo dia, engraçado, na mesma hora que costumava vir pra me dar aula. Um mês para o casamento ela apareceu com o braço quebrado e uma pequena gase na testa. O noivo ficou atônito, ela respondeu que foi uma queda de nada, nem doeu e a irmã insistiu o médico. Ficou surpresa, com o braço quebrado, mas nem doera. No final dessa frase ela colocou “amor”, ele até riu, esgarçado. Meu pai me arrumou um emprego num banco. Cheguei do primeiro dia do trabalho, não queria falar com ninguém, ele não me viu e estava sentado na cozinha bebendo vinho, sentei perto e só me ouviu depois de um tempo. Não me perguntou nada e só disse: — Hoje a Ná caiu da escada e quebrou o outro braço! Mas ela estava inabalável e quis casar mesmo assim, “ sua Ná vai ficar bem graciosa, você vai ver!” Meu pai não acretidou e me confessou o seu temor, me pediu que não contasse mais nada sobre o professor, dos machucados. Confirmei que não iria e ele me pediu que repetisse. Ele a hospedou em casa, num quartinho no andar debaixo e cuidou dela. No meu diário meu pai era o “muletas”. E o muletas era todo automatizado, se movimentava bem, não escorregava, e agora dera pra beber. Dizia “ cuidado!” várias vezes à sua noiva. Inácia, por causa dos gessos nos braços, parecia que queria abraçar todo mundo e dera pra se chamar “imbecil”, (ou já era sua mania?) e ria quando fazia alguma imbecilidade.
Faltando um dia pro casamento ela entrou no meu quarto de roupão, o tirou com manobras. Não fiquei constrangido por que um corte enorme nas costas deixava o sangue escorrer. Começou a falar rápido e só entendi a parte final: — Daí você ter que me costurar, quer dizer, suturar.”, ela sabia da desconfiança do noivo e com ele bebendo vinho daquele jeito. Se fosse ao médico ele perceberia, “me ajude”” e ficou esperando minha resposta. A agulha era em forma de meia lua, a linha, de náilon, estava dentro de um pote com alcool (vinho?). Ela parecia não sentir dor, terminei a sutura e fui imediatamente tomar um banho frio e não a ajudei a se vestir, manobra que ela não dominava, ainda mais ferida.
O dia do casamento chegou. Estava com meu pai ajudando-o com a gravata, ele com um cálice na mão, quando ouvimos um baque surdo que senti subir pelas pernas. Ele desceu correndo a escada, deixando a bebida na minha mão. Carregou a noiva pro quarto, mas ela quase gritava que estava tudo bem. Se casaram. O vestido branco (nada mais justo) e o gesso contrastavam, esse último já estava amarelado. Alguém teve a idéia, ignorada injustamente, de passar uma mão de látex pra deixar tudo mais assim, parecido.
Três dias depois atravessei a rua e entrei animado no banco. Uma senhora de vestido vermelho não teve problemas para passar pro lado de dentro com a permissão da porta giratória. Na minha vez vi o chão chegar perto de mim, numa queda grotesca com um braço pra frente, preso na porta giratória. Um grandalhão que queria sair forçou a porta (eu era funcionário do banco, vingança?) e o meu braço direito querbrou, o braço que mais gostava. Fiquei uma hora esperando num hospital que o gerente me levou. Algum idiota brincou comigo por eu ter chorado. Voltei pra casa mais cedo. A porta estava meio aberta, uma garrava virada deixava vinho cair pelo sofá, isso já tinha acontecido outras vezes. Fui pro meu quarto. De lá ouvi uns barulhos, fui direto pro quarto dos casados. Abri a porta de um jeito que sabia que não faria ruido algum (vai saber o porquê). Meu pai estava em cima da esposa, a cabeça dela pendia pra fora da cama, não fiquei constrangido por que Inácia estava pálida, imóvel e seus olhos sem cor. As mãos do meu pai saíam agora do pescoço dela. Ele tremia, afobado. Inácia estava tão estrábica que parecia ter chorado pra cima, lágrimas ainda desciam dos seus olhos rumo a testa. Fechei a porta, “era a gravidade”, pensei. Entrei no meu quarto, minha cabeça girava. Risquei no meu gesso a data.

F i m

Riscando o Calendário






Cada hora seria um impacto,
Um copo de café
impossível, vetados

Num adiantamento todos morrem
versos
deveria ter irradiações
um centro imoral de ideias

uma intermediária intenção
a volta em volta
do problema
o mal dos centros
muralhas
os teotemas

festas bucólicas
anteriormente

fé na física, parece
quebras nessas linhas
e que não resultem nada
pragas e rancor

tardias taras que não param.

Poder ser intitulado de Tesla

Nove Histórias Curtas

1. Desejava que fosse um órgão sem morte. Um desejo disforme na cara amorfa. Não, o seu corpo todo agora transformado, o ar se agrega impune. Desajeitando o andar.
2. Sorteado sem gesto. E já não era sem tempo? Pensava se fazendo doer e lembrar da promessa antecipada de doença. Pra dentro do dia uma dor sem dor. A mão veio à cabeça e assim foi, uma vibração para o esquecimento — sem memória.
3. Escrevia desde pequena com letra bonita. Toda caprichada, dizia a professora que ganhava uma maçã e dava um estrela. Mas não via as estrelas à noite. Nem a lua. A cara cheia de sua professora, inchada de orgulho. Não via as cadeiras. E não via seu pai que a deixou numa praça com a certeza que de lá ela não sairia sozinha. Mas. Mas ela excedia as expectativas e atravessou a rua tateando o próximo minuto, foi atropelada. Pensando em. Ou. Pensava, já que não podia enxergar.
4. Tinha vários nomes, claro. Sobrenomes. Idades, claro. Desde um único acidente. Empregos, famílias, claro. Menos essas coisas: sentimentos.
5. Até pulava e seu riso deixava os outros desarmados. Ria ingenuamente, amigo de todos. As pessoas então se perguntavam se o conheciam, se ele as conhecia. As muletas pareciam leves, tão manuseáveis. Oferecia com gestos fortes que a pessoa experimentasse. Alguns negavam graves. Outros delicados. Um ou outro rude sem saber — ou todos. A agilidade com a fala para quem não o conhecia era mais um machucado. E ele poderia pensar: Sim, nas noites mais sombrias eu falo lentamente, bem devagar, pra sarar pelo menos dos olhares.
6. Não tinha braços. Engasgava sua voz. Parecia resmungar mesmo quando elogiava. E o elogiavam tanto! Adoravam seu quarto, todo adaptado. Um sistema, uma constelação. Uma constelação, dizia um amigo da família. Mas era tudo marginal. Muitas das coisas de primeiro mundo, e toda essa imagem quase artesanal, sem credibilidade. No banho sua mãe tão acostumada ao corpo do filho, perpetuamente se espantava com o sexo do filho. Um enorme pênis. Enquanto a toalha secava seu cabelo pelas mãos de outra pessoa ele pensava: Essa noite poderei usar a parte do meu corpo que é acima da média. Mais que o normal, não menos. E poderei escolher a mulher da minha preferência. De peitos grandes. Lábios carnudos, beiços. Nesta noite, constelação.
7. O número perfeito. Até está na biblía, mas isso não é raro. Sete tiros. Jorge agonizava acretidando, só pensando, no resgate. Chegaria a qualquer momento. Rápido, serviço rápido. Mas não. Demorou, os minutos esticados ao máximo até o próximo. Os minutos gordos e displicentes. As mãos que tateavam o corpo eram ainda dos assaltantes. E mais o tempo transcorreu lerdo. Começou a contar, por serem os números inteiros. A ambulância chegou. O estado dele foi crítico por vários dias. Mas foi recuperado. Não corria, por causa das balas, mais risco de morrer. Sua mulher, seus filhos, os pais, todos aliviados. Quando acrodou — Poderia viver um dia antes do outro? Retroceder? Finalmente alcançar o passado por um motivo mais sério ou pelo menos mais palpável, mais físico? Que, mesmo voltando a sentir a dor dos sete tiros e da espera, o outro dia sairia do banco e acordaria no dia anteriro para o aniversário da mulher. Então tiveram que explicar, como muitas coisas dali pra frente, que o tempo não existia mas seguia sempre. Até se criavam calendários e relógios e que, veja, o seu não fora roubado.
8. A maioria não sabia que ele era autista, clinicamente. Ele mesmo sabia que era, mas não achava, timidamente. Tinha um certo prazer em assistir um programa e copiar no outro dia o jeito de se vistir do apresentador. E perdia minutos e minutos escolhendo a roupa. Quando ficava satisfeito vez ou outra soltava o jargão do apresentador. Poderia fazer isso, sem perceber, sempre, não constantemente, mas sempre. A mulher o ajudava nisso.
— Desculpe, sei que parece preguiça
— Não parece, disse a mulher.
Se beijaram levemente num abraço.
9. Meus vizinhos não gostam. Coloco a música no volume mais alto pra ouvir uma pequena quantidade de som, eu ouço. E coloco a música mais dançante já ouvida. E com a música eu tudo aquilo pra odiar. Um dia alguém desligou a música sem eu perceber. Estava quase nua, sem sutiã. Percebi atrasada e corri pro quarto assustada mas rindo muito. Era uma loucura controlada. Nunca li direito os lábios por isso não consegui espreitar o que falavam lá na sala, de mim ou do cachorro, do salário de alguém, quem sabe. Fingi pentear os cabelos, sacana e irônica respondi pra Mila que não sabia de nada. Espantosamente ela não percebeu. Fez gestos que não acreditava que faziam isso toda semana. Meu irmão, ela achava. Ria desesperado quando Mila saía. Não achava possível ser eu. Nenhum pouquinho assim, dedo mindinho, unha do dedinho do pé? Aí de vez em quando me perguntava se eu ia casar mesmo com um carinha que sempre vinha nos visitar e eu
— É.
Mas só queria fazer aquilo toda semana. Ligar o rádio no último volume. E mesmo que não ouvisse nada. Era tão amável a expressão de Mila, seus olhos, seus sorrisos desconcertados que era isso, toda semana.

O Convalescente


leves contradições: fortes certezas efêmeras...
Jolioct work’s, book III


O que você escreve podia estar mais saudável.
Depois mandou pelo correio, não me deixou ler direito o resto. Quer dizer, lembro mais dessa frase. Ia dizer que havia mandado pelo correio, já disse e —.
Nunca erre no começo da palavra — também estava escrito isso. Acho que não gosto de quem erra no final, ele não, sempre sendo metódico e arisco prum jeito, pruma regra que inventa.
Passei o pano molhado pela testa dele, queria sair, hoje em pé. Agora conseguia ver mais seus ossos e senti-los. Provavelmente era o que mais gostava nele. Hoje estava bem até para andar. Viriam semanas e semanas só na cama. No começo já o ajudava a tirar a camisa e seu corpo era forte, mais bonito que o meu. Passava agora o pano molhado pelas cavidades evidentes cheias de pó da casa. Na rua sol e vento. Sentamos num banco com uma avenida em frente, movimentada. Ele elogiou uma loira, mais sacana descrevi os seios dela. Ele riu e perguntou imediatamente como ia minha mulher. Arrumei uma frase falsa de efeito que não deu certo. Queria dizer que ele lia mais livros, era mais culto, mas só pensei. Senti que me olhava.
— Não pense tanto, não faz bem. Sua cabeça raspada e seus olhos castanhos claros lhe davam seriedade.
Enfermeiro era como me chamava. Ou antes de me pedir alguma coisa, dizia grave: Do efêmero para o enfermeiro, e continuava, usando sua voz normal meio falida. Na minha terceira semana, precisávamos, nas suas palavras, achar algum tema. Ele tinha uma crônica pra fazer que uma revista famosa pedira. Estava animado porque o dinheiro iria todo pro filho, a pensão que pagava era bem pequena. Disse ainda que me daria um presentinho.
Fico naquela casa tanto tempo que minha mulher parou de reclamar e durante os fins de semana ela me olha muito e fica meio assustada ou surpresa com meu desejo por ela. No final isso não é tão ruim e nesses dois dias o que parece é que preciso de outro emprego.
— Você será o tema!
Não mesmo. Mas: ok, um dia estava vindo pra cá, no meu terceiro dia — lembra como foi? Então... — aí um cara me parou no corredor de enlatados do Pacheco e disse que se lembrava que eu tinha feito uma sutura nele e que gostava muito mesmo da cicatriz que ficou. Era das boas, da barriga até o joelho.
— Mentira.
Começou a me mostrar.
— Mentira.
Não fui eu que fiz. A caixa de e-mails lotou e também a do correio. O dinheiro veio porque ele ficou convidado a ser colunista. Não era isso que queria dizer, ir por esse lado. Não queria. E um dia escreveu mudando um pouco quando limpei seu vômito no pior dia. Nesse dia discutimos. Tudo fica confuso porque não quero dar o nome dele nem o meu. Era dia da empregada e ela nos olhava com medo. A raiva em mim durou a semana toda, ele só ficou assim por algumas horas. Filho da puta. Talvez minha raiva dure mais. Queria se um narrador distanciado. Naquele dia o escritor estava melhor, se moveu melhor na cadeira de rodas e num papel branco escreveu algo sobre seu enfermeiro, que estava no quarto arrumando hermeticamente um estojo de remédios, lia os nomes e lembrava-se dos pequenos cursos de aprimoramento que supostamente o ajudariam a passar nas provas para medicina. Não sou médico e aquele zíper não fechava, deixei meio aberto.
Minha obrigação era se aproximar dele. Ver suas palavras e seu corpo. Limpá-los. Houve um dia que foi especifico, o ajudasse a deixar seu corpo muito limpo e perfumado. E asseado me mandou sair a tarde toda por que havia convidado alguém. Uma amiga, perguntei.
— Sim, de duas horas ou mais se eu gostar.
Obedeci. Voltei só no final da tarde. Ele estava sentado vendo TV. Havia tentado escrever. Não falei com ele por uns vinte minutos. Até que me encarou e se não pude sustentar meu olhar, estou sem culpa. Riu enfurecidamente e disse que se sentia jovem e não escritor e um garoto. E que poderia espantar toda a doença e acreditar em deus. Essa garota fez tudo isso, perguntei.
— Não, fiz a maior parte!
É, ele estava bem, se levantou e foi beber água. Não roncou aquela noite, não levantei sobressaltado pra acudi-lo. Mesmo nas noites normais quando ele fazia tudo isso constantemente, aprendi o melhor jeito pra dormir. Nessa noite poderia ter tido um sono sem interrupções mas não dormi um minuto se quer, pensando nas mil possibilidades de quando aquela felicidade, no tipo de pessoa dele tão passageira, se esgotasse e se deterioraria e em sua doença precisaria mais de mim. Não ganharia nada com isso.
Quando estava de folga lhe arrumavam outro enfermeiro ou primo. Ele tinha familiares que até se importavam, não era aquele quadro que analisei com afinco na primeira noite, um escritor decadente, doente, sozinho e sem família. Uma outra história de um médico que queria que certo escritor famoso fosse seu ghostwriter e por isso sabia bem suas medidas, sua altura, seu peso e quanto precisava ganhar. E sua pulsação. E posso um dia dizer a hora de sua morte, era o nome e também fez sucesso e um dia tiramos pra ele não tomar remédios e eu não ministrá-los e respondermos as cartas. Um fã se identificava com a história do médico, dizia que era enfermeiro.
— Enfermeiro, essa é pra você, pode responder. Respondi.
“Oi Marcelo. Talvez não pense mas me identifico com você também porque no momento um enfermeiro me ajuda e na hora dessa precisão vocês são melhores que babás e que minha mãe. Podemos continuar nos correspondendo, obrigado.”
— Tira a mãe.
Mas mandei assim mesmo. Saímos para o passeio da semana. Uma loira não parava de olhar para ele e quando voltei com as pipocas vermelhas que pedira, estavam conversando os dois. Meu paciente fez um gesto. Saí e também, como um garoto logo antes, derrubei um pouco das pipocas no chão sujando o parque. Diante da balança seu corpo estava mais forte, pouco, mas ganhara peso. Quando o comuniquei rimos e como uma vitória, precisávamos comemorar.
— Tem cerveja velha na geladeira, olha lá.
Os efeitos colaterais podiam acontecer a qualquer hora e com níveis imprevisíveis de reação, mas aceitava mesmo os remédios novos, mostrava força e melhorava. Às vezes gritava com sangue na garganta que produzia notas diversas e paradoxais.
— Tome aqui. É um caderno, escreve tudo aí e principalmente suas raivas de mim enfermeiro porque sei que é assim.
Já tenho um diário. Nessa semana minha mulher me ligou todos os dias, nosso filho estava doente e febril. O Efêmero me disse que isso era uma surpresa já que eu não falava da criança. Como não falo.
— Tem medo de mim?
Minha resposta foi: Já vi tudo que seu corpo pode fazer, não tenho medo. Talvez meu filho não goste de mim ou eu não goste dele ou seja de outro. De qualquer forma isso só ajudou no meu plano de mandar uma carta para ele, idéia inspirada nos fãs e principalmente no enfermeiro leitor, de quem respondi a carta. A história poderia ser qualquer uma e ele reconheceria alguns pontos despretensiosos e aparentemente sem importância no texto, esses pontos seriam os seus defeitos e os seus absurdos e de alguma forma se sentiria punido e mais tarde melhoraria. A primeira reação me agradava mais. Desisti na mesma noite deste projeto infantil. Enquanto ele dormia na manhã seguinte comecei a carta. Pedia que lesse, perdesse um pouco de seu tempo pra me responder o que achava daquela minha história, simples e amadora.
A tarefa de ficar implícito era mais difícil do que imaginara. Procurei me instruir lendo livros pra conhecer estilos e até outras línguas. E um livro enorme sobre a história da literatura, uma enciclopédia e a bíblia. Isso tudo me fez perder enorme tempo. Esquivava-me das perguntas e perguntava inocente daquele escritor russo e se tinha uma edição, minha mulher gosta e outras desculpas. Quase sem avanço e de escola em escola a carta mantinha um estilo desprezível. Feito um animal esfomeado pedia que ele me dissesse como escreveria tal frase e tentava me esconder evidenciando tanto meu propósito que valesse como luz nos olhos.
As tardes com amigas de algumas horas aumentaram. E Cláudia, a loira, se tornou importante e até disse que tinha lido um livro dele. O vi ficar vermelho. Tornaram-se inexoravelmente próximos e ela me pediu explicação sobre alguns remédios, falei meio por cima e desviei a conversa e os olhos. Sonhei que a polícia nos acordava e perguntava se conhecia a mulher na foto, Cláudia, e diante da afirmativa me avisavam que tinha sido encontrada morta, meu deus.
O relato, a carta, era cada vez mais direto, claro. Não podia contornar isso, só na outra linha, tentar me esconder. E a história de Márcio Nova, um escritor que narrava a vida de seu enfermeiro, Jonas Camargo. No alto de sua demência. Apaixonado pela vizinha loira. Mesquinho e vingativo. Nada foi escondido e me satisfazia a imaginá-lo lendo, único desfecho que queria. Quando ler essa história similar, na sua cara. Clara. Uma história clara.
Mais ou menos um ano depois disso o vingativo texto estava terminado. Nessa época só precisava visitá-lo alguns dias na semana. Abastecia a caixa de remédios e deixava que Cláudia lhe investigasse o pulso e o peso. Meu trabalho de fato era ajudá-lo a responder seus fãs.
— Olha essa, nossa, diz que é inspirado naquele conto, faz um ano acho, dum médico. Nem lembro o nome e nem conto era, bobo, uma cronicazinha só.
Era a minha carta. Fiquei aflito. Ele perceberia no primeiro parágrafo, na linha. Nas palavras que eu copiei do seu próprio vocabulário. Efêmero. Foi lendo, sentia que era impossível não notar, que estava fingindo. Não sei por que fui inventar aquela história. Palidamente ia me perguntando se o conhecia bem, se lia com atenção, mas não notava. Todas aquelas coisas. Por fim disse:
— Esse é bem louco, doente. Mas já que quer um conselho, anota aí.
Escrevi o que me ditava. Você me lembra de quando comecei a escrever. Me lembra de quando eu era bem novo. O que você escreve podia estar mais saudável. Sinto que posso te dizer isso. Ah, e nunca erre no começo da palavra. E podemos continuar nos correspondendo. Obrigado. Terminava ali, com o final igual ao de sempre. Ele melhorou e até ia casar, era eu que não tinha melhorado. Era como se não tivesse resistido a ele, alguma doença. Cheguei em casa e imediatamente comecei a escrever uma nova carta já sabendo como seria a que dali a poucos dias viria. Queria terminá-la o mais rápido possível, já tinha todos os elementos, porém, deixei pela metade.

F I M